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A caverna das selfies esquecidas

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Por Tiago Ramos

Você já escreveu algo no Twitter hoje? Postou uma foto no Instagram? Atualizou sua página no Facebook? Agora, a pergunta realmente difícil: por quê?

Se colocados contra a parede e forçados a entregar uma resposta assim, de sopetão, provavelmente colocaremos a culpa em terceiros: “Respondi a uma mensagem / post / foto / comentário do meu amigo.” Podemos, ainda, nos explicar por meio da vontade de informar um evento interessante, testemunhado por acaso ou vivido por nós mesmos, ou o desejo de alegrar a manhã dos outros com uma tirada sagaz sobre determinado acontecimento. Observe como, também aqui, justificamos nosso comportamento – ao menos em parte – pensando no benefício alheio. Uma terceira possibilidade, mais próxima de nossos reais motivos, envolveria a admissão de algum grau de vaidade no comportamento: “Sabe o que é? Estava tão bonita hoje que não resisti e fiz uma selfie…”

Entretanto, se conseguirmos analisar nossas razões de maneira mais objetiva, perceberemos que nossas motivações são mais egoístas do que aparentam à primeira vista. Em grande medida, nossas intervenções online decorrem de uma necessidade de nos considerarmos relevantes, de não sermos esquecidos por aqueles que nos cercam. Em uma época em que as redes sociais se tornaram um componente tão essencial de nossas rotinas, a busca por visibilidade se confunde com nossa própria sobrevivência. Eu também não sou diferente. Se solicito alguns minutos da sua atenção para um texto sobre Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams), documentário de 2010 recentemente incluído no catálogo nacional do Netflix, é preciso reconhecer a vaidade inerente à pretensão de se acrescentar algo à discussão sobre um filme de meia década atrás, em que pese a proposta de nosso blog.

A necessidade humana de expressar-se, bem como a permanência daquilo que produzimos diante da força destrutiva do tempo, compõem o cerne emocional do documentário narrado, escrito e dirigido pelo alemão Werner Herzog. A caverna que inspira o título do filme, oficialmente batizada de Chauvet Pont d’Arc, foi descoberta em 1994 no sul da França por Eliette Brunel-Deschamps, Christian Hillaire e Jean-Marie Chauvet. O local ganhou notoriedade mundial por conter em suas parede as mais antigas imagens produzidas por seres humanos já vistas, algumas das quais feitas há mais de 32.000 anos. Em Caverna dos Sonhos Esquecidos, acompanhamos a primeira ocasião em que uma equipe cinematográfica, pessoalmente encabeçada pelo próprio Herzog, foi autorizada a registrar seu conteúdo.

O que se vê nos 400 metros de comprimento da caverna impressiona não apenas pela idade da arte, mas também pela sua beleza. Com apenas duas exceções, as pinturas rupestres descobertas retratam animais como cavalos e bisões, todos de características marcantes. Algumas figuras retratam rinocerontes em duelos, com intensa vivacidade. Em outra parede, encontramos a ilustração de um leão feita em um único traço, medindo mais de dois metros e irretocável em seu contorno. Talvez ainda mais surpreendentes sejam as pequenas investidas do homem do final do período Paleolítico em direção à arte narrativa: em alguns casos, as pinturas dos animais apresentam mais pernas do que deveriam, sugerindo movimento. Uma espécie de “proto-cinema”, como definido pelo narrador.

Se é curioso pensar que os antigos visitantes da caverna previram o conceito de imagens em movimento, fundamento maior do cinema, o que então dizer do paralelo entre as artes em três dimensões lá encontradas e os filmes em 3D atuais? Milênios atrás, os autores das pinturas frequentemente levaram em conta a estrutura curva das paredes na elaboração de suas imagens, utilizando-as em seu favor para reforçar aspectos do corpo dos animais. Não, há, porém, melhor exemplo de tridimensionalidade na caverna do que uma das duas únicas representações de seres humanos descobertas no local. Nesta, o artista fez uso de uma protuberância do teto para representar a metade inferior de um corpo feminino, com o desenho de uma perna humana na parte visível ao olho nu. O que se esconde do outro lado do “pingente de pedra” representa um dos mistérios do local – parcialmente desvendado ao longo do filme –, devido às limitações de deslocamento na caverna impostas pela necessidade de preservação do ambiente.

O que se esconde do outro lado.

O que se esconde do outro lado.

Mais de trinta mil anos depois, estas mesmas imagens e a intenção de mostrar seu impacto com máxima fidelidade viriam a motivar a realização e a exibição original do filme em 3D. Um dos primeiros documentários a fazê-lo, Caverna dos Sonhos Esquecidos ganha ainda tons assombrosos pela constante e inevitável interferência de seus realizadores nas imagens capturadas pelas câmeras. Devido às já mencionadas limitações de deslocamento, parte das estritas regras estipuladas pelo Ministério da Cultura francês no acesso à Chauvet Pont d’Arc, a diminuta equipe de filmagem não consegue deixar de projetar suas próprias silhuetas nas paredes da caverna. Em longas sequências em que tudo o que se ouve são batidas de coração ou a evocativa trilha composta por Ernst Reijseger, as câmeras nos mostram close-ups das pinturas rupestres, intercalados com planos mais abertos. E sombras. Se, racionalmente, sabemos a quem os vultos pertencem, emocionalmente não conseguimos deixar de pensar nos autores das ilustrações, como se eles ainda estivessem ali de alguma maneira.

Apesar do valor histórico e artístico da caverna e do seu conteúdo, é esse elo entre presente e passado que mais interessa a Werner Herzog, cineasta e documentarista desde meados dos anos sessenta. Muito do filme é dedicado à equipe de arqueólogos e paleontólogos encarregada de desvendar a função daquele local para o homem da Idade da Pedra, assim como às razões que motivaram as pinturas. Como o próprio título do documentário sugere, tanto o diretor quanto os cientistas envolvidos com o projeto procuram reconstituir a história, expectativas e sonhos dos visitantes da caverna – a quantidade de fósseis de ursos encontrada é um forte indicativo de que humanos jamais moraram no local –, mesmo separados por um “abismo do tempo”, nas palavras de Herzog.

O que nos leva à segunda, e mais pessoal, representação de figuras humanas encontrada na Chauvet Pont d’Arc. Próximo ao que foi determinado como a entrada original da caverna, eventualmente lacrada por um deslizamento de terra, há um enorme painel repleto de pontos rubros. Na verdade, estas manchas são impressões de mãos feitas com tinta vermelha, semelhantes às que nós mesmos costumávamos pintar no jardim de infância. O detalhe mais importante destas impressões, que voltam a aparecer esporadicamente e com menor intensidade em outros pontos do local, é o fato de que um de seus autores possuía uma deformidade no dedo mindinho, provavelmente decorrente de uma fratura com calcificação inadequada. Como resultado, um indivíduo em particular pode ser identificado dentre todos os que passaram pelo local.

A selfie definitiva.

A selfie definitiva.

Seu gesto, por mais simplório que seja, talvez tenha gerado as mais tocantes dentre todas as figuras encontradas. Por mais belas que sejam as pinturas rupestres descobertas, nenhuma outra imagem afirma com tamanha intensidade e reconhecimento imediato a existência de uma vida específica, distinta de incontáveis outras. Como se seu autor, na ausência de linguagem escrita, houvesse encontrado uma maneira visual de falar conosco. E ele diz: “Eu vivi. Eu existi.” Não sabemos seu nome, tampouco como se parecia fisicamente. Jamais saberemos. Mas por meio de uma imperfeição acidental em seu dedo, o registro de sua individualidade nos encontra, informa e quem sabe até comove, mesmo diante do vão temporal que nos separa.

Enquanto os créditos finais do filme sobem com a imagem desta mão ao fundo, imediatamente voltamos às nossas interações modernas. Como se por reflexo, apanhamos nossos celulares e procuramos nos atualizar com o que aconteceu na última hora e meia. Voltamos a alimentar nossas ansiedades em plataformas de interação cada vez mais rasas, as quais promovem diálogos progressivamente mais efêmeros e superficiais. Rapidamente esquecemos que, na competição por page views e likes, por atenção e permanência de nossas ações e palavras, fomos vencidos por um ser humano de dezenas de milhares de anos atrás e sua selfie definitiva. Em uma das entrevistas finais do documentário, um simpático arqueólogo explica que, para entender o conteúdo da Chauvet Pont d’Arc, é necessário primeiro olhar para fora dela. Em contraste, parecemos cada vez mais enamorados de nossos próprios espelhos. Se realmente quisermos ser relevantes e deixar algum legado duradouro, talvez seja hora de sairmos de nossas cavernas e finalmente aprendermos a nos comunicar.

Caverna dos Sonhos Esquecidos está disponível no catálogo nacional do Netflix.

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Sobre Revista Salsaparrilha (39 artigos)
Lê, vê, joga e cura reumatismo.

1 comentário em A caverna das selfies esquecidas

  1. Esse filme é sensacional mesmo! O melhor foi ver no cinema em 3D. No Netflix tem pouca coisa em 3D e pouca gente tem tv com a tecnologia em casa.

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