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Salsaparrilha Mixtape #1: Nóis É Cool

mixtape1

Moreau & Miles. Foto (detalhe): Getty Images.

Por André Hernandez, Tiago Ramos e Maurício Sellmann

A trilha sonora da sua vida passou por um bom número de filmes, games, séries de TV e até livros. Se eles não o marcaram pela música inesquecível, certamente embalaram momentos marcantes. Como a vida é um trabalho em andamento, Salsaparrilha está aqui para lhe dar uma mãozinha com os sons que farão parte das suas lembranças. Por isso, inauguramos esta sessão um pouco diferente, explorando as sensações auditivas por trás de certas histórias. Para a nossa primeira playlist, fomos atrás de temas tão elegantes e cheios de atitude que você poderia vesti-los no meio da rua sem medo de passar vexame. Play.


Lust for Life — Iggy Pop

Trainspotting – Sem Limites

A introdução de Trainspotting – Sem Limites (Trainspotting, 1996) é a tradução cinematográfica do cool (tomando a palavra em seu sentido mais popular): ritmo frenético, edição rápida, um ótimo monólogo de abertura, a apresentação do elenco principal e da peculiar filosofia de vida do protagonista. Para amarrar tudo isso e gravar de vez a sequência na memória do espectador, nada poderia ser mais eficiente do que as batidas de Lust for Life. Em um minuto e meio, Iggy Pop e a trupe sob o comando do diretor Danny Boyle conseguem ser mais marcantes do que as duas horas inteiras de muitos filmes. How cool is that, mano? (TR)     


Leaving on a jet plane — Chantal Kreviazuk

Armagedon

O filme é mesmo o Armagedon (Armageddon, 1998) do Michael Bay, mas essa versão da música do John Denver de 1966 é uma das que está na lista de “melhores que a original” da casa. A Chantal é uma moçoila canadense que não costuma ser tão cool assim: é colaboradora de Avril Lavigne e Shakira, por exemplo. Está mais pra ídolo teen que crooner. No “filme”, o canas…, ops, galã, Ben Affleck canta essa música pra Liv Tyler no momento em que está rumando ao desconhecido. Logo, toda a tripulação engrossa o coro. Drama crescente com quebra para piada antes do desfecho. Não, não dá pra ser mais clichê. Mas a música é linda. A gente perdoa. (AH)


Soylent Green: Main Titles — Fred Myrow

No Mundo de 2020

Um filme de ficção científica policial com uma trilha jazzística? Nada mais adequado. Antes de Vangelis em Blade Runner, Fred Myrow compôs a música para No Mundo de 2020 (Soylent Green, 1973) com um típico conjunto de jazz mais orquestra e sintetizadores. Afinal, a Nova York do futuro se parece muito com a da década de 70, e seus habitantes são o cool em pessoa: Charlton Heston, Edward G. Robinson e Joseph Cotten. Esta faixa de abertura dá o ritmo a uma montagem sobre a explosão populacional do mundo moderno, tema do filme, terminando na Nova York caótica e perigosa do futuro. É uma música pulsante, com um final em aberto, de notas ameaçadoras. (MS)


Kettering — The Antlers

“The Good Man” (T01E06) — Fear the Walking Dead

Essa música passa o dia no repeat por aqui. The Antlers é uma bandinha bem bacana de Nova York, daquelas pra impressionar a gatinha e mostrar o quanto você é descolado. FTWD é infinitamente inferior à série mãe, mas eles costumam acertar na trilha. E, quando essa toca, dentro do contexto, arrepia o cangote. Revi a cena duas vezes com prazer. É um final apoteótico, daqueles que, depois que passa, você olha pro lado mordendo o lábio e comenta: “Droga! Acho que entrou um cisco no meu olho.” (AH)


Magical Sound Shower — Hiroshi Kawaguchi

OutRun

Apesar do abismo gráfico que separa os jogos, o OutRun de 1986 é, em essência, tão simples quanto o clássico Enduro do Atari. O jogador se desvia de veículos mais lentos do que o dele enquanto faz curvas mais ou menos longas e fechadas. Compará-lo com os Forza Motorsport e Gran Turismo de hoje, então, é pura covardia. Ainda assim, ele supera seus descendentes graças a um simples detalhe: sua trilha sonora. Dentre as inesquecíveis faixas do game, a caribenha Magical Sound Shower é a que melhor casa com a fantasia de sentar ao volante de um conversível, tomar a estrada em um dia ensolarado e deixar toda a sua vida para trás. (TR)


This Vicious Cabaret — David J.

V de Vingança

Quem leu a minissérie em quadrinhos V de Vingança (V for Vendetta, 1982-1989), lembra-se de toda uma sequência musical em que o terrorista V descrevia, ao piano, o clima entre desesperador e patético daquela Inglaterra distópica. A canção existe. Ela faz parte de um LP de David J., de 1984 (não podia ser em outro ano), também intitulado V for Vendetta e inspirado na obra de Alan Moore e David Lloyd (os autores da canção). Para acompanhar o álbum, Lloyd desenhou a sequência como um encarte, a ser mais tarde incluído nas reedições da história. Detalhe: David J. é o nome artístico solo de David J. Haskins, o vocalista e baixista da lendária banda gótica Bauhaus. Ele incorpora perfeitamente o V dos quadrinhos nos vocais de The Vicious Cabaret, indo até a beira do precipício e voltando sem perder a elegância. (MS)


There Is a Light That Never Goes Out — The Smiths

500 Dias com Ela

Ok, essa pode ser meio óbvia, mas é super-ultra-mega-cool! Quando a Summer (Zooey Deschanel) cantarola essa música no elevador, até eu me apaixonei por ela!!! 500 Dias com Ela (500 Days of Summer, 2009) é água-com-açúcar que eu não me canso de ver. E a trilha é toda espetacular—e a Zooey também, né? (N. do E.: há controvérsias.) (AH)


L’ Appuntamento — Ornella Vanoni

Doze Homens e Um Segredo

Você sabe que a música é boa quando sobrevive a uma versão para o italiano. “Sentado à Beira do Caminho”, de Roberto e Erasmo Carlos, passou no teste. A versão interpretada por Ornella Vanoni tornou-se sucesso imediato na Itália, de volta no Brasil, e no mundo. Doze Homens e Um Segredo (Ocean’s Twelve, 2004) não passa de uma versão diluída do primeiro filme de Steven Soderbergh sobre charmosos trambiqueiros—que, por sua vez, era uma refilmagem de um veículo para Frank Sinatra e amigos da década de 1960. Charme, porém, é a palavra-chave: Europa mediterrânea, um elenco inteiro que podia ser capa da Vanity Fair, e Ornella ronronando L’Appuntamento nos nossos ouvidos já nos primeiros minutos de projeção. Assim é covardia. (MS)


Be for Real — Leonard Cohen

Brincando de Seduzir

Tá, aqui vou roubar no jogo. Quem canta essa música no filme é o Afghan Whigs numa versão maravilhosa, mas a original é a coisa mais cool que você vai escutar esta semana. Se bobear, nesse mês. Beautiful Girls (Brincando de Seduzir no Brasil—eca!) é uma daquelas comédias românticas da década de 90 com Uma Thurman e Matt Dillon. No começo, você vai achar o filme bobo (até é), mas a trilha vai dando uma sensibilidade pro negócio que, no final, você acaba gostando. Todas as músicas são boas: Billy Preston, Chris Isaak, Ween, Lou Reed, Barry White, Stones… Um filme mais pra ouvir que ver. (AH)


Am I Blue? — Kevin Conroy

“This Little Piggy” (T01E05) — Justice League Unlimited

Durante uma patrulha em Gotham City, Batman e Mulher-Maravilha esbarram, por acaso, na feiticeira Circe. No confronto que se segue, a amazona acaba transformada em uma porca. Neste irreverente episódio com referências a A Feiticeira (1964-1972) e—claro—Babe, o Porquinho Atrapalhado (1995), o roteirista Paul Dini guardou o melhor para o final. Enquanto a heroína procura não virar bacon em um matadouro, a reversão da macumba depende do Homem-Morcego subir no palco de um teatro lotado e dar uma de crooner. A canção escolhida por ele não poderia ser mais apropriada para o personagem: a melancólica Am I Blue, composta em 1929 por Harry Akst e Grant Clarke. (TR)


Desperado — Johnny Cash

Cowboy Bebop

Vou ser honesto com vocês: não sou grande fã de animação japonesa, mas Cowboy Bebop (Kaubôi Bibappu, 1998-1999) é über cool. Antes de assistir, eu escutei, meio que sem querer, a trilha sonora. Achei a escolha tão doida que tive que ver de onde vinha aquilo. Já começa com uma abertura estilo Saul Bass misturado com James Bond. (N.do E.: Que Archer chupou até o caroço depois.) E isso é só aperitivo. É violento, sexy, inteligente. E se eu não te convenci, dá uma olhada (ou melhor, escutada) nisso:

(AH)


Florence sur les Champs-Élysées — Miles Davis

Ascensor para o Cadafalso

Poucos cineastas têm o privilégio de contar com uma lenda para compor a trilha de seu filme. Pouquíssimos ainda podem dizer que essa colaboração é, por si só, uma lenda. Para seu primeiro longa-metragem, Ascensor para o Cadafalso (L’Ascenseur pour l’Échafaud, 1958), o diretor Louis Malle encomendou a música a Miles Davis, que juntou um quarteto de músicas em Paris e compôs tudo numa única madrugada. Ah, e para tornar a história melhor, fez tudo isso enquanto bebia champanhe com a estrela do filme e musa do cinema francês, Jeanne Moreau. Florence sua lei Champs Élysées é o título bastante descritivo desta faixa que segue a personagem de Moreau pelas ruas parisienses, sem entender por que seu amado Julien (Maurice Ronet) não apareceu depois de matar o seu (dela) marido—vide o nome do filme. Em vez de traduzir ao pé da letra o que está se passando na tela, como o faria um John Williams, Davis estimula a caminhada sem rumo de Florence. O movimento harmônico bastante limitado já sugere o jazz modal que Davis faria em seus próximos álbuns, como Kind of Blue (1959). Quantos filmes têm o luxo de inaugurar uma vertente inteira do jazz? (MS)


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Sobre Revista Salsaparrilha (39 artigos)
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1 comentário em Salsaparrilha Mixtape #1: Nóis É Cool

  1. Dessas aí sem dúvidas a minha favorita é a de Iggy Pop!

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