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Vinyl x The Get Down: vida e morte em um “like”.

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Por André Hernandez

Você já teve a sensação de que, em alguns eventos da vida, a expectativa é melhor que o ato em si? É aquela velha história do trailer incrível, mas o filme é uma porcaria. Um single fantástico de um álbum medíocre, ou mesmo uma capa que faz você parar para ver, mas dentro tem um lixo de livro.

Hoje em dia o sucesso de um produto cultural está muito mais relacionado com a expectativa criada nas redes sociais do que com a qualidade do produto final. OK, desde sempre Hollywood investe zilhões de dólares em mídia, mas agora ser bacanudo não depende tanto do investimento, e sim de cair nas graças da meia dúzia de pessoas certas — aquelas tais que fazem você pensar como você pensa. Alguns chamam de trenders ou, na língua de Camões, “formadores de opinião”.

The Get Down, de Baz Luhrmann (O Grande Gatsby, Romeu + Julieta) para a Netflix, e Vinyl, cria de Martin Scorsese e Mick Jagger para a HBO, sofreram desse mal do século, com consequências trágicas para a segunda. Esse ruído virtual influenciou decisivamente o destino destas obras gêmeas.

Baz Luhrmann Portrait Session

Baz Luhrmann, além de fazer uns filminhos bons, é um gato.

TGD é uma história manjada de casalzinho-com-romance-impossível que gira em torno da música (rap / hip-hop), e estilo de vida (grafite / breakdance), com uma pegada documental pero no mucho, que se passa em Nova York. O mais legal é ter uma visão geral, genérica e romântica do que aconteceu nos anos 70, culturalmente falando, no subúrbio da capital do mundo.

E Vinyl? Bom, o famoso Control C + Control V ajuda: Vinyl é uma história manjada de pai-de-família-doidão-workaholic (isso, tipo Mad Men mesmo), que gira em torno da música (pop / rock), e estilo de vida (noias em geral), com a mesma pegada documental pero no mucho, que se passa em Nova York. O mais legal deveria ter sido uma visão geral, genérica e romântica do que aconteceu nos anos 70, culturalmente falando, no meio da capital do mundo.

Viu? É quase igual. E foi no quase que desandou.

A HBO cometeu um erro fatal ao criar uma tremenda expectativa em torno dos autores de Vinyl durante toda a produção. Uau! O Mick Jagger vai produzir uma série! Com Martin Scorsese! Vai ser demais!!

No final das contas o que a série entrega é uma visão quase ingênua, para não falar boba, da efervescência cultural de uma década que viu morrer a discoteca, e nascer o punk e o hip-hop. Em vez de mostrar esse parto, com a propriedade de quem estava lá, a série patinou, patinou, e não saiu do lugar. Cadê a influência do punk inglês? Certo, vamos falar de NY Dolls, mas que tal citar o Malcolm McLaren, o inglês que literalmente inventou as bonecas de Nova York? Na boa, o punk nasceu lá na terra da Rainha e foi pra América já como produto manufaturado. Nada disso sequer é citado.

Quando eu li pela primeira vez sobre a série, me veio logo à cabeça uns ménages envolvendo David Bowie, Lou Reed & Jagger; o Richard Hell pedindo para matarem ele e depois ficando com medinho; o fanzine que deu nome ao movimento punk; as tretas entre os Ramones; briga de faca no Bowery; sovaco peludo da Patti Smith; ataques de estrelismos sem fim do Andy Warhol mijando em uma placa de metal para enferrujá-la e falando que aquilo era arte (os caras retrataram-no como um cidadão bacana!!!); enfim, todos aqueles podres que fizeram essa história tão única. Para que Jagger se não rolam umas informações de bastidores? Cadê o diferencial de mercado para encantar o público que devora fotos nos blogs dos entendidos do showbiz?

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Ah, mas é tudo ficção! Exato. E foi exatamente aí que deu tudo errado, frustrando as expectativas multiplicadas pelas hordas do Facebook e do Twitter.

Vinyl ficou em cima do muro. Não se posicionou como uma série ousada, nem se tornou o conto de fadas fofo que é TGD. As passagens mais psicoldélicas ficaram risíveis a ponto de parecerem um freelance da equipe de produção do Chaves — só faltou a pílula de nanicolina e os aerolitos. As subtramas foram ficando mais interessantes que a principal e os coadjuvantes roubaram a série. E convenhamos, ficar tentando chocar a audiência com cocaína é tão anos 80

Para vingar, a série da HBO precisava de um tempo que ninguém mais tem na idade da Peak TV. Acredito que uma segunda temporada seria o pulo do gato da série. Ela poderia engrenar pelos pontos que nós realmente queríamos ver. Mas a avalanche reativa das redes sociais garante que uma série de TV seja jogada aos leões bem mais rapidamente do que na era analogical. Quem tem paciência para esperar?

Enquanto isso, na era do politicamente correto, The Get Down acertou na mosca — ou no post, como preferir.

A novelinha teen afrolatina de Luhrmann (com o roteirista Stephen Adly Guirgis) puxa elementos reais da juventude da geração 1970, de uma forma extremamente romântica, com que a geração X consegue se identificar; tudo certinho, emotivo e já testado. Se você pensou Stranger Things (aaaah, essas fórmulas…), também da Netflix, está no caminho certo. É isso que rende assunto em Facebook e Twitter (ainda existe Snapchat?). É disso que os fãs de U2 e Coldplay gostam. Essa é a média universal aceitável. Essa é, ainda hoje, a fórmula para o sucesso de audiência. Sem grandes nomes ou muito alarde, o seriado musical da Netflix cumpriu exatamente o folhetim que prometeu.

TGD se apropria de tudo aquilo que o povo gosta, desde a época dos Irmãos Grimm, Shakespeare e, por que não, Boccaccio com sua narrativa popular e instigante. TGD também pega um tanto de Guerra nas Estrelas, com música no lugar de sabres de luz e naves espaciais. Enfim, é como lembrar de uma infância feliz no subúrbio que nunca existiu, com a melhor trilha sonora da atualidade — e isso vem de um roqueiro convicto, ok?

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Falando em fórmulas, a de Romeo+Julieta (1996)…

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…foi replicada em TGD, para agradar a Montéquios & Capuletos.

É preciso, porém, talento também para sustentar a fórmula por muito tempo sem esgotá-la. Na TV, a segunda temporada pode levantar ou enterrar uma série de vez. Baz Luhrmann conseguiu fazer o mesmo filme várias vezes com êxito para seus fãs. De Moulin Rouge-Amor em Vermelho a O Grande Gatsby, a história pouco muda. O seu segredo parece ser a quantidade industrial de glitter despejada em cada produto. Resta saber se ele terá o suficiente para continuar garantindo likes dos trenders para #TheGetDownTemp02.

Vinyl está disponível na HBO e pelo aplicativo HBO Go. The Get Down pode ser encontrado no Netflix Brasil.


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Sobre Revista Salsaparrilha (39 artigos)
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1 comentário em Vinyl x The Get Down: vida e morte em um “like”.

  1. TGD tem ainda, de lambuja, o uso genial e correto do blaxploitation e artes marciais na forma sutil de comédia, uma homenagem à rica cultura dá época. Quem viu outra série documental dá Netflix HipHopEvolution, sabe que o encontro do hip hop com o punk é importantíssimo, dois lados do underground que sempre se ajudaram de uma certa forma. Sendo assim, é mais provável ver algo do punk em TGD que em Vinil. Pode?

    Curtido por 1 pessoa

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