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Aquela vez em que Jorge Amado trolou o Carnaval de Salvador

trolagem

Há algumas semanas, durante a transmissão do jogo de encerramento do campeonato de futebol americano nos EUA, o Super Bowl, um comercial chamou a atenção por usar trecho de um sermão de Martin Luther King para vender caminhonetes Dodge Ram. “Ele que é o maior entre todos vocês será seu servo”, dizia o reverendo enquanto imagens mostravam profissionais usando a caminhonete para ajudar pessoas. Os responsáveis pelo anúncio parecem ter esquecido –– ou nem ouvido –– o resto do sermão, de fevereiro de 1968, especialmente a parte em que King ataca o consumo de carrões: “Não é comum ver pessoas que ganham 5 mil num ano dirigindo um carro que custa 6 mil? E eles se perguntam por que estão sempre em dificuldade financeira.” A gozação não tardou. 

Se algum dos publicitários envolvidos tivesse passado o Carnaval de 2012 em Salvador, talvez pudesse ter aprendido a lição de que é melhor ler a coisa toda antes. Ou talvez não tivesse aprendido nada porque a versão baiana da gafe do Dodge Ram passou em brancas nuvens. Um dos envolvidos, porém, deve ter se divertido horrores com o episódio: o escritor Jorge Amado, àquela altura já tomando licor n’além-túmulo. Caminhemos ao início da história.

Corria o ano da graça de 2011 na cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos quando a prefeitura, por meio da Empresa Salvador de Turismo (Saltur) e do Conselho do Carnaval, anunciou qual seria o tema da festa de Momo do ano seguinte num evento em São Paulo. E o que podia ser mais adequado do que reverenciar Amado, o autor de fama internacional que faria cem anos, postumamente, em 2012? Que homenagem melhor do que àquele que criara a imagem de uma cidade em eterna festa e alegria de viver apesar de todas as mazelas, com uma gente humilde que jamais desiste, amante do copo e do corpo, um caldeirão de raças promissor, mulatas valentes e sedutoras, e orixás tão anárquicos ou salvadores da pátria quanto os antigos deuses gregos? Era perfeito.

Entre tantas obras do escritor em que o Carnaval anima o enredo, a equipe do prefeito João Henrique decidiu usar o primeiro romance solo (depois da obra coletiva Lenita), publicado em 1931, para exaltar a festa –– até porque seu título é O País do Carnaval. João Jorge Amado Filho, neto do escritor, abençoou e agradeceu a homenagem. O Pelourinho seria decorado “especialmente relembrando o primeiro livro de Jorge Amado, que é O País do Carnaval”, declarou Rômulo Cravo, da Secretaria de Cultura. A cantora Daniela Mercury sairia fantasiada de Dona Flor, a dos dois maridos do livro do mesmo nome, em cima do trio elétrico. Numa entrevista à rede Bandeirantes, ela citou outro livro de Amado para falar de sua importância para a afirmação da negritude e o imaginário nacional. Já a rainha do Carnaval, Naiane Darlen Conceição, desfilaria como Gabriela Cravo e Canela. O músico Moraes Moreira criou uma canção especialmente para a folia. “A sua obra tem tudo a ver com o Carnaval. O personagem Vadinho, do livro Dona Flor e Seus Dois Maridos, é um carnavalesco nato”, disse. Curiosamente, nenhum sinal de personagens de O País do Carnaval.

Ocorre que o livro trazia um pequeno problema, aparentemente despercebido de todos os envolvidos: O País do Carnaval é a obra mais anticarnavalesca e anti-Amado de Jorge Amado.

paisdocarnavalNo livro –– concluído pelo escritor aos 18 anos, em 1930 ––, um jovem boêmio chamado Paulo Rigger volta ao Brasil depois de anos estudando e se esbaldando na Europa. Quando chega ao Brasil, tal qual um emigrado de Miami, sente-se como um alienígena, “doente de civilização”, em sua própria terra: não se reconhece no meio daquele povo “preguiçoso, indolente”. Desembarca no Rio, em preparativos para a festa de Momo. (Só o Carnaval carioca aparece no livro, no início e no fim.) Logo, integra-se à “alegria doente” junto com mulatas de peito de fora que sambavam “num delírio”. Ao som de Dá Nela, de Ary Barroso, deixa-se levar e vê ali “todo o sentimento da raça”.

Essa raça, aliás, já nasceu amaldiçoada, como o próprio Amado comenta na Explicação que abre o romance:

Este livro tem um cenário triste: o Brasil. Natureza grandiosa que faz o homem de uma pequenez clássica.

A sátira, no Brasil, só a praticam os papagaios.

No Norte, terra da promissão, há uma grande confusão de raças e sentimentos. É a formação do povo. E dessa confusão está saindo uma raça doente e indolente. E todo dia, a natureza surra, com o chicote do sol, o nortista tragicamente vencido.

É uma imagem chocante para todos que conhecem o Amado das aventuras de Jubiabá (1935) ou das histórias picantes da década de 50 em diante. Não há nada para festejar aqui. O jovem escritor apenas ecoa um ideário comum entre os intelectuais da época. O escritor Mário de Andrade, em Na Pancada do Ganzá (1929), uma mistura de diário de viagens e pesquisa musical, também “explica” que o nordestino está a meio caminho entre a civilização e o primitivismo, daí sua deficiência em raciocinar. Antes dele, um dos mecenas dos modernistas de 1922, o fazendeiro paulista Paulo Prado, escreveu em seu famoso Retrato do Brasil (1928), não por coincidência subtitulado “Ensaio sobre a tristeza brasileira”:

…espalham-se pelo nosso território grupos humanos incertos, humildes, salvo um ou outro foco de expressão nativista, abafados e paralisados em geral por uma natureza estonteadora de pujança, ou terrivelmente implacável. Aí vivem à solta, numa terra comum.

Amado replica tudo isso no seu primeiro romance. Paulo Rigger e seus amigos não se cansam de chamar seus desafetos de “mulatos”, assim como xingamento mesmo. Imagine “Eles são inferiores, mas não é culpa deles” como slogan de Carnaval. É importante lembrar que até Gilberto Freyre exaltar a mistura de raças em Casa Grande e Senzala (1933), a miscigenação era vista como uma das raízes do fracasso nacional. Amado seria muito influenciado pelo ensaio de Freyre –– depois que o lesse, claro. Por enquanto, tudo o que o escritor tinha a dizer sobre o Brasil e a Salvador que o prefeito João Henrique queria vender em 2012 pode ser resumido neste parágrafo de O País do Carnaval:

À mesa do bar, alguns rapazes conversavam. A luz das lâmpadas elétricas, na rua, dava chibatadas na escuridão envolvente. Pretas gordas, nas esquinas, vendiam acarajé e mingau. E nas sombras da noite a Bahia parecia uma grande ruína de uma civilização que apenas começara a florescer.

Amado descreve tudo isso da forma mais solene e pessimista possível. Seu Rigger é um homem amargurado, que quer vencer como intelectual nesta sociedade natimorta, mas sabe que está fadado ao fracasso. Depois de duas desventuras amorosas, muito melodrama e até um episódio de violência doméstica (“Dá nela/Dá nela…”), ele se dá por vencido e retorna à Europa… num dia de Carnaval. É quase impossível visualizar em O País do Carnaval, um romance curto fragmentado, o autor que explodiria na literatura nacional com a denúncia social vibrante de Cacau e Jubiabá, ou que faria retratos romantizados e picarescos da gente miúda em obras como Os Pastores da Noite e A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água. Trata-se de um garoto aprendendo o ofício: ele terminou de escrevê-lo pouco depois de chegar ao Rio de Janeiro para cursar a faculdade de Direito. O país vinha do marasmo malcheiroso da República Velha, tão semelhante à do século XXI, e partia para a experiência de Getúlio Vargas, que tomaria o poder naquele 1930 junto a outros militares insatisfeitos com o resultado das eleições presidenciais. Seria apenas um tipo diferente de decepção para compor a malaise que perpassa O País do Carnaval.

Posteriormente, Amado renegaria o livro, que, mesmo do ponto de vista estritamente literário, envelheceu mal. (Seu editor, Augusto Frederico Schmidt, já admitia na publicação que o livro “tem grandes defeitos”.) Passaram-se décadas até ele permitir a sua tradução e lançamento na França, um de seus melhores mercados. A Explicação do original foi extirpada das edições seguintes e somente restaurada quando a editora Companhia das Letras relançou a obra em 2011. Em entrevista à tradutora Alice Raillard, meio século depois, o escritor diria que o livro é como um jovem que veste uma “roupa emprestada”, tentando impressionar. 

Parafraseando Moraes Moreira, tem tudo a ver com Carnaval. Não há noticias de que alguém tenha notado o equívoco da homenagem de 2012 –– ou efetivamente se dado ao trabalho de ler o livro. A história continua ainda melhor.

Em agosto do mesmo ano, o Jornal da Manhã, da TV Bahia, reuniu cantores baianos famosos para celebrar o aniversário do escritor lendo trechos do romance que ele detestava, alguns claramente despidos da ironia no contexto original. Carlinhos Brown lê o parágrafo sobre Salvador como grande ruína com uma animação de quem narra gol do Bahia. Adicionando insulto à injúria, Bell Marques declama sua parte debruçado sobre uma mesa de bar com um copo d’água.

O trote proporcionado pelo romance do Amado jovem daria uma ótima obra cômica do Amado velho, o mesmo que deve estar rindo até agora da armadilha que deixou para prefeitos e publicitários desavisados.

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Amado (com Dorival Caymmi), morto de rir.


O País do Carnaval e quase toda a obra de Jorge Amado estão disponíveis em excelentes reedições da Companhia das Letras, em papel ou digital.


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A metade mais problemática da Revista Salsaparrilha.

1 comentário em Aquela vez em que Jorge Amado trolou o Carnaval de Salvador

  1. Eu não lembro desse ocorrido, mas nessa época eu não estava mais morando em Salvador então acompanhei muito pouco do carnaval. Mas é uma história sensacional e realmente tem tudo a ver com o lance do comercial do Superbowl. Parabéns!

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