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A Estante dos Filmes Esquecidos: Redentor

Redentorpic

Por Maurício Sellmann

A Estante dos Filmes Esquecidos é uma seção regular do blog dedicada a caçar filmes que, como o explicativo título mostra, caíram no esquecimento ou nem sequer subiram ao reconhecimento. São obras que pensamos terem sido injustamente subestimadas ou que precisam de uma mãozinha para serem redescobertas.


Redentor passou despercebido pelos cinemas brasileiros em 2004, quando foi lançado, apesar das críticas favoráveis. Dirigido por Claudio Torres, o filme tem roteiro baseado em história original de João Emanuel Carneiro (Avenida Brasil) e Fernanda Torres, irmã do diretor. O humor ácido da atriz, que já pode ser visto – ou melhor, lido – no seu romance de estreia, Fim, permeia também o roteiro do diretor com Elena Soarez (Casa de Areia). É, de fato, um empreendimento familiar: além de Fernanda Torres (que comparece em uma ponta), os pais do diretor, Fernanda Montenegro e Fernando Torres, também participam do elenco.

Tamanho trem da alegria poderia ter dado errado, mas Redentor resulta bem-sucedido e mais complexo do que aparenta. Menção honrosa para a trilha operática de Maurício Tagliari e Luca Raele, ajudados no deboche pelo uso da abertura de O Guarani, de Carlos Gomes – mais conhecida como o tema de abertura do programa de notícias do governo federal, A Voz do Brasil. Confira no vídeo acima algumas razões para redescobrir o filme. E caso prefira ler ou tenha ficado chocado com a dicção deste escriba, a transcrição do vídeo segue abaixo dessa linha de fronteira.

Redentor está disponível em DVD pela Warner Home Video nestas casas do ramo.


Olá. Eu sou Maurício Sellmann e hoje vamos dar uma olhada em Redentor, uma produção brasileira de 2004 dirigida por Cláudio Torres com base em roteiro do próprio diretor e de Elena Soarez.

O narrador do filme, morto já no início, conta sua história em flashback. Célio Rocha, interpretado por Pedro Cardoso, é um jornalista encarregado de fazer uma matéria sobre a construtora Saboya, cujo dono se matou deixando um rastro de dívidas e escândalos de corrupção para seu filho, Otávio Saboya, papel de Miguel Falabella. Mas Célio também tem por interesse uma vingança pessoal: seu pai é um dos compradores enganados do Condomínio Paraíso, um prédio de apartamentos na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. A situação fica mais complicada quando os moradores da favela invadem o prédio inconcluso, mas que tem confortos como água potável, que eles não possuem em seus barracos. Otavio, porém, convence Célio a escrever uma matéria tendenciosa contra os invasores, em troca de dinheiro e do tão sonhado apartamento. Este é só o início do envolvimento de Célio com as negociatas de Otávio, que o levam também aos bastidores da capital federal, Brasília, e ao submundo do crime nos altos e baixos escalões. Acometido de um sentimento de culpa e visões apocalípticas, Célio resolve consertar os estragos que causou.

Célio é um personagem picaresco moderno, que vive uma série de aventuras e transformações até a redenção prometida. Seus delírios invariavelmente envolvem a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro ou no cerrado ao redor de Brasília. A certa altura, ele se torna mesmo uma figura messiânica, que opera milagres e se acredita imbuído de uma missão imposta pelo sobrenatural. O filme mistura temas terrenos, como a corrupção política, com uma paródia da religião organizada, sem se importar com o absurdo carnavalesco cada vez maior que cria. Por isso mesmo, a crítica das disparidades na sociedade brasileira ganha ainda mais força, com ressonância que um drama engajado não alcançaria.

Como filme escrachado e hiperbólico que é, Redentor não segue a cartilha realista que domina o cinema brasileiro atualmente. Trata-se de uma fábula moral, cujos exageros podem causar estranheza ao espectador. Os atores se entregam a uma interpretação quase sempre histriônica, com exceção de Miguel Falabella, como Otávio Sabóia. Falabella parece ter compreendido que seu personagem se tornaria mais efetivo se fosse fortemente contrastado com os outros. Por isso, sua atuação é contida, o que torna Otávio ainda mais diabólico. A atmosfera kafkiana é realçada por grandes angulares que deformam o rosto dos atores, pela iluminação expressionista e por cenários claustrofóbicos, como o apartamento de Célio e a penitenciária, com grande influência de Brazil, o Filme (1985), a fantasia distópica de Terry Gilliam. Outras vezes, ele satiriza o visual febril de espetáculos bíblicos, como Os Dez Mandamentos (1957), de Cecil B. de Mille.

Os temas do filme, porém, seguem a vertente mais política do Cinema Novo, especialmente dos filmes de Glauber Rocha. Se Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) explora as relações entre pobreza, messianismo e violência, Redentor faz do próprio Célio um profeta acidental, que se torna ao mesmo tempo líder de criminosos foragidos. De Terra em Transe (1967), o filme de Torres toma de empréstimo a relação entre populismo, fisiologismo e poder. Há até uma CPI das Construtoras que vista uma década depois, revela a historicidade de certas práticas nacionais. Tanto no populismo como no messianismo, o líder assume a figura de um pai. Não por acaso, a figura paterna é um elemento recorrente. O pai combalido de Célio espelhando o de Otávio, um profeta bufão. E um dito popular é várias vezes repetido: “Deus é pai”. Célio almeja se redimir frente ao pai terreno e ao Pai Eterno. Ironicamente, porém, a sequência durante os créditos finais descortina uma redenção que é apenas uma bela estátua no alto de uma colina.

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Sobre Revista Salsaparrilha (39 artigos)
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2 comentários em A Estante dos Filmes Esquecidos: Redentor

  1. Depois da lei que obriga os canais por assinatura a terem uma cota de produções nacionais esse filme foi exibido algumas vezes no canal Sony (salvo engano), mas nunca parei pra assistir. Na época fiquei com vontade de ver no cinema, mas acabei deixando passar. Boa dica, vou ficar de olho se por acaso não voltar a ser exibido na tv.

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