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A infância sem fim: os laços e lições da Turma da Mônica

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Por Tiago Ramos

Desde meados dos anos noventa, com a popularização das animações dos estúdios Pixar, o conceito de histórias infantis com apelo também para os adultos disseminou-se. Um olhar atento sobre esses trabalhos nos revela que, na verdade, parte do entretenimento que o público mais velho deriva de tais narrativas decorre da forma como essas tramas dialogam com uma melancolia presente em muitos de nós. Afinal, quem não sente falta, em maior ou menor grau, de tempos em que a vida parecia mais simples? É esse sentimento que está presente no comovente final de Toy Story 3 (2010), na série animada Over The Garden Wall (2014) e até mesmo em Divertida Mente (Inside Out, 2015), para citar alguns exemplos.

Ainda que o despertar de emoções relacionadas ao fim de nossa infância nos comova profundamente, histórias dessa natureza não costumam ter o mesmo efeito sobre as crianças. Não há surpresa nisso: a maioria do público jovem não possui maturidade e cognição suficientes para perceberem a tristeza inerente ao fim dessa etapa de suas vidas. Esperar algo diferente dos pequenos beira o sadismo. Mesmo que alguma criança consiga internalizar a ideia de que a sua inocência possui data de validade, não há benefício algum a ser extraído dessa consciência.

Magali, Mônica, Cebolinha e Cascão, na arte de Vitor e Lu Cafaggi.

Magali, Mônica, Cebolinha e Cascão, na arte de Vitor e Lu Cafaggi.

A maneira como os irmãos Vitor e Luciana “Lu” Cafaggi conseguem dialogar tanto com crianças como com adultos é a principal virtude de suas duas histórias em quadrinhos estreladas pela Turma da Mônica, Laços (2013) e Lições (2015). Em ambos os trabalhos, os autores conseguem o raro feito de casar narrativas sobre a infância com um ponto de vista maduro sem usar nossa nostalgia como uma ferramenta para despertar pesar. Na visão dos quadrinistas, os primeiros anos de nossas vidas são marcados por uma constante mistura de alegrias, tristezas, dores, vitórias e amizades. A infância não é, nem de longe, simples ou fácil. Mas é, para Mônica, Magali, Cascão e Cebolinha — bem assim para o leitor, ao menos enquanto investido no papel de testemunha de seu mundo — eterna.

As duas graphic novels (ou novellas, uma vez que possuem 68 páginas de quadrinhos cada) foram publicadas como parte do projeto Graphic MSP. Nele, quadrinistas brasileiros de renome ou talentos emergentes recebem carta branca para emprestar seus traços e sensibilidades próprias às criações de Maurício de Souza, em abordagens e narrativas mais elaboradas do que as séries de periodicidade mensal. Poderíamos dizer que, enquanto os títulos regulares da Turma da Mônica são coleções de esquetes em sua maioria cômicos, Laços e Lições transpõem os personagens para tramas com início, meio e fim, preenchidas com sentimentos genuínos.

Coisa de menino (e de menina também!)

Laços gira em torno do desaparecimento do felpudo cachorro do Cebolinha, Floquinho. Diante do insucesso dos seus pais em encontrar seu mascote, o garoto decide, ao lado de Cascão, Mônica e Magali, localizar o bichinho por conta própria. No roteiro escrito a quatro mãos, os irmãos Cafaggi prestam uma homenagem às aventuras cinematográficas dos anos oitenta no tom e no desenrolar de sua história. (Nos estágios iniciais de desenvolvimento, a HQ chegou a se chamar Meninos Perdidos.) Como em Os Goonies (The Goonies, 1985), Laços é a idealização de uma aventura que gostaríamos de ter vivido junto com os nossos coleguinhas de infância.
Não é por acaso que a primeira aparição de Cebolinha em

Não é por acaso que a primeira aparição de Cebolinha em “Laços” se dá com o personagem fantasiado de Peter Pan.

Apesar da ação inspirada pelos obstáculos e adversários enfrentados pelos garotos na procura pelo cãozinho, os autores nunca perdem de vista seus personagens. Na ótima cena inicial, todo o elenco é apresentado enquanto Cebolinha (fantasiado de Peter Pan, em uma referência à infância sem fim da turminha) e Cascão tentam escapar de mais uma surra aplicada pela Mônica. Todas as crianças possuem personalidades e características bem definidas, fiéis às versões originais de Maurício de Souza: Cebolinha é o estrategista, autor de “planos infalíveis” que sempre dão errado; Cascão o seu fiel escudeiro, mais afeito a atividades físicas e com uma fobia irreversível de água; Mônica é força bruta, ao mesmo tempo rival e maior parceira dos meninos; e Magali é a garota inocente e distraída que pensa com o estômago.

Como o próprio título sugere, o principal enfoque de Laços está na amizade entre os quatro personagens, bem como no elo entre uma criança e o seu animal de estimação. No decorrer da aventura, cada um dos quatro protagonistas desempenha, individualmente e em conjunto no climax da história, um papel fundamental na superação dos problemas e vilões surgidos no curso da odisséia. As crianças apanham, se machucam, sorriem e se entristecem juntas, com a dificuldade de um sendo vencida pelo apoio de outro. Não há, em um único quadro ou linha de diálogo da HQ, a sugestão de malícia ou cinismo entre os protagonistas. Tal qual a relação entre Cebolinha e seu cãozinho, existe apenas um genuíno e perpétuo sentimento de lealdade compartilhado pela turminha.

Mais um trecho da cena inicial. Repare na fluidez da narrativa.

Mais um trecho da cena inicial. Repare na fluidez da narrativa.

A arte da graphic novel é, ainda, um deleite aos olhos. Vitor (Valente) ilustra as cenas no presente, com as crianças por volta dos sete anos. Por sua vez, Lu (Mixtape) cuida dos flashbacks, os quais mostram os personagens ainda menorzinhos. Lu é responsável, ainda, pelas sombras e texturas, ao passo que Vitor, com a assistência de Priscilla Tramontano, aplicou as cores. O traço dinâmico de Vitor e a delicadeza do trabalho de Lu, aliados a cores vibrantes (no presente) e marcantes (no passado) fazem com que a história flua como uma animação, sempre transmitindo a sensação de movimento.

Laços é, enfim, uma ida ao cinema com os nossos pais quando ainda éramos pequenos, para assistir a crianças tornarem reais as brincadeiras de nosso faz-de-conta moleque. Um filme-pipoca para assistir comendo algodão-doce e tomando refrigerante.

Já Lições é aquele filme independente que reverbera na alma. E que demanda ser guardado na prateleira e na memória.

Curva de aprendizado

Em Lições, acompanhamos as consequências de uma tentativa frustrada da turminha de escapar do colégio, após Cebolinha se dar conta de que nenhum deles fez o dever de casa durante o final de semana. Quando Mônica quebra o braço durante a fuga, o plano acaba sendo descoberto pelos pais dos meninos. Visando disciplinar a criançada, os adultos bolam um castigo diferente para cada um deles: Mônica termina sendo transferida para outra escola, distante dos seus amigos; Magali é submetida a aulas de etiqueta; Cebolinha passa a frequentar uma fonoaudióloga para corrigir seu problema com a pronúncia da letra “r”; finalmente, o pobre do Cascão é forçado a frequentar aulas de natação no clube.

O pequeno Cebolinha reage à ideia de nunca se livrar do colégio.

O pequeno Cebolinha reage à ideia de nunca se livrar do colégio.

Se o primeiro trabalho dos Cafaggi com a turminha parte do enredo para chegar aos personagens, Lições toma o caminho oposto. À primeira vista, a graphic novel mais parece uma série de breves sequências com os meninos, que se revezam nos holofotes ao lidar, cada um do seu jeito e longe dos demais, com os desafios que se apresentam como resultado das punições sofridas. Aos poucos, porém, fica claro que cada uma das quatro tramas transforma os protagonistas de algum modo. Não é por lidar com a infância como uma fase da vida que nunca termina que os quadrinistas retrataram seus protagonistas como crianças incapazes de aprender e evoluir. Diante da dificuldade das situações em que se encontram, Cebolinha, Cascão, Mônica e Magali usarão toda sua imaginação e habilidades para adaptar-se às suas novas realidades.

A razão do afeto de Magali. Mas quem resiste a um padeiro fatiando presunto, não é mesmo?

A razão do afeto de Magali. Mas quem resiste a um padeiro fatiando presunto, não é mesmo?

Apesar da HQ possuir temática mais triste do que a anterior, os autores equilibram esse sentimento com uma pitada extra de humor. A motivação para Cebolinha decidir fugir do colégio se dá pela convicção, acidentalmente ensinada pela sua mãe quando ele ainda era pequeno, de que aqueles que não fizerem o dever de casa ficarão na escola para sempre. O menino descobre, ainda, que a Mônica desempenhava o papel involuntário de sua defensora, passando a ter que lidar com os valentões do colégio agora que ela não mais se encontra ao redor para protegê-lo. Magali, por sua vez, termina apaixonada pelo filho do padeiro, ouvindo a música do Titanic na cabeça quando o vê ( segundo ela, “essa é a música do amor”). E não há como o leitor deixar de abrir um sorriso ao ver a saída encontrada pelo Cascão para mostrar ao pai que está participando das aulinhas de natação, depois de dias fugindo da piscina.

Ao separar os protagonistas, Vitor e Lu usam a distância para reforçar a importância dos vínculos entre eles. Infeliz na nova escola, a única fonte de alegria que a Mônica passa a ter em seus dias reside no mecanismo clandestino criado para comunicar-se com a Magali. Os problemas pessoais de Cebolinha e Cascão só não são piores devido ao inabalável companheirismo dos dois. Ao final, Lições revela ainda os verdadeiros sentimentos que se escondem por trás da rixa entre Mônica e Cebolinha em um surpreendente encontro ao anoitecer, naquela que é a cena mais doce das duas graphic novels.

Ainda que de autoria dos mesmos criadores (com Paula Markiewicz substituindo Priscilla Tramontano na função de colorista assistente), há mudanças perceptíveis na arte. Livre da necessidade de ilustrar sequências de ação, Vitor parece mais à vontade com as expressões faciais dos personagens, as quais se mostram mais cartunescas e ocasionalmente tendem para o mangá. De sua parte, os flashbacks desenhados por Lu não apenas são mais frequentes, como também se encaixam com maior naturalidade ao enredo. Lições demonstra, ainda, a habilidade dos quadrinistas no controle do ritmo da narrativa: nas últimas sete páginas da HQs, quando a história assume um tom mais contemplativo, as pranchas repletas de quadros e diálogos dão espaço a imagens maiores e os balões restringem-se ao mínimo necessário. O leitor sente o ritmo desacelerar enquanto os fechamentos emocionais das tramas paralelas vão sendo entregues à perfeição, um a um.

Cascão contempla seu medo de água, em um dos mais marcantes silêncios em

Cascão contempla seu medo de água, em um dos mais marcantes silêncios em “Lições”.

Ao passo em que Laços brinca com a nossa imaginação infantil, Lições trata dos desafios que efetivamente vivemos ao abordar a necessidade de nos adaptarmos a circunstâncias inesperadas. Como costumava acontecer quando éramos crianças, conseguimos projetar as nossas próprias experiências naquelas vividas pelos personagens criados por Maurício de Souza. Sim, não resta dúvidas de que nossa ingenuidade eventualmente desaparecerá, e que aqueles problemas darão lugar a outros, de maior complexidade. Mas esta talvez seja a grande qualidade do trabalho realizado por Vitor e Lu: eles nos mostram que nossa inocência, ao contrário do que acreditávamos, não está morta. Ela apenas se esconde, dentro de nós, esperando pela oportunidade certa para vir à tona. Como na leitura de uma revista em quadrinhos da Turma da Mônica.

final

Laços e Lições podem ser encontrados nas melhores livrarias.

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3 comentários em A infância sem fim: os laços e lições da Turma da Mônica

  1. Essas HQs são maravilhosas, alias, todas essas graphic novels da Turma da Mônica são muito boas. Umas mais, outras menos, mas o resultado é sempre positivo. Sua avaliação ficou muito boa. E aí, vai comentar alguma das outras também?

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    • Ramon, grato pelo comentário! Até como parte de nossa política de procurar variar os temas do blog, deve demorar um pouco até voltarmos a falar do selo Graphic MSP. Mas pelo pouco que vimos, a linha merece, de fato, os elogios recebidos. Abraços!

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  2. Mais um excelente texto. Parabens!! Gosto muito da Turma da Mônica me fez lembrar da minha feliz e rica infância, apesar de a professora sempre proibir leituras como gibis que, segundo a teoria didática consagrada na época dizia que “tais leituras desestimulam a criatividade e imaginação da criança”. Dizia a professora Maria Neide que Turma da Monica não é literatura infantil que preste. Oras, dizia eu, “deixe-me em paz velha chata porque eu quero me divertir um pouco”. Ao ler esse texto me fez lembrar também de uma reportagem que falava do sucesso dos Mangás aqui no Brasil. Mas prefiro fazer o comentário em uma outra oportunidade.

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