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Tempos (bastante) Modernos

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Por Tiago Ramos

Acompanhar o desempenho do governo federal nos últimos meses tem sido uma experiência similar a assistir a uma corrida de Fórmula 1 repleta de acidentes. No esporte, a curiosidade (e, sinceramente, um certo grau de sadismo) nos compele a acompanhar cada derrapada com atenção redobrada. A mesma dedicação, vertida para a política brasileira, até poderia render um passatempo igualmente divertido se não fôssemos caronas involuntários dos carros pilotados pelo Palácio do Planalto, pela Câmara dos Deputados e pelo Senado.

Parece até meme da oposição, mas não é.

Parece até meme da oposição, mas não é.

A última quarta-feira, 08 de julho, trouxe ao poder executivo mais um encontro com o guard-rail, ainda que de menor impacto se comparado com capotagens recentes. Em uma tentativa de divulgar seu Programa de Proteção ao Emprego na noite anterior, a página oficial do Planalto no Facebook utilizou uma imagem do filme Tempos Modernos (Modern Times, 1936) para exaltar os empregos que o programa visa ajudar a manter no atual cenário recessivo do país. A reação dos internautas foi tão negativa que a postagem foi removida menos de um dia depois — e, podemos apenas imaginar, o (provável) estagiário responsável pelo meme reduziu sua jornada de trabalho a zero horas semanais.

Para compreendermos a razão por trás de tamanha indignação, é preciso relembrar o início do filme. Escrito, dirigido e protagonizado por Charlie Chaplin, a comédia tem início com o adorável vagabundo Carlitos, personagem mais famoso do seu intérprete, como um operário em uma linha de montagem industrial. Encarregado de apertar porcas em uma esteira a um ritmo cada vez mais frenético, o atabalhoado funcionário termina sendo engolido por um dos gigantescos equipamentos do local — onde se dá o momento mais icônico da obra e ilustração principal deste artigo. Ao emergir do maquinário, Carlitos finalmente cede à pressão da cobrança por produtividade e surta. Descontrolado, ele rapidamente põe a fábrica inteira em desordem até ser apanhado e internado em um hospital psiquiátrico. Por mais hilária que seja a cena — dificilmente encontraremos uma sequência mais engraçada em toda a história do cinema — Chaplin critica ferozmente as condições de trabalho do período, bem como a automação de tarefas e a alienação do operário. Passados oitenta anos, tanto a piada quanto a indignação do artista se mantêm atuais e claras. Exceto, aparentemente, para a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Entretanto, reduzir Tempos Modernos a uma crítica à perversidade das relações de trabalho numa sociedade industrial, como normalmente se faz, é um desserviço à obra e ao seu autor. Desde sua estreia no cinema em 1914, Chaplin especializou-se no formato de curtas-metragens populares no cinema mudo. Apesar de lançado apenas em 1936, o filme expõe as raízes do artista. Ele pode ser enxergado como uma concatenação de quatro curtas de aproximadamente 20 minutos cada, mais breves cenas que costuram as pequenas narrativas em uma história única. O trecho na fábrica é apenas o primeiro desses segmentos. Na verdade, em pouco menos de uma hora e meia, o cineasta pinta um retrato de uma sociedade em crise, os Estados Unidos da Grande Depressão. Como veremos mais adiante, ele ao mesmo tempo duelava, por trás das câmeras, com o crescimento do cinema falado e sua própria obsolescência. Ambas as perspectivas, a histórica e a pessoal, podem ser traduzidas para o Brasil de hoje sem grandes esforços.

Paulette Goddard, em

Paulette Goddard, em “Tempos Modernos”.

Apesar de raramente lembrado por isso, o filme opõe-se com veemência à truculência policial. Logo depois de receber alta do hospital onde é trancafiado no início, Carlitos acidentalmente se vê no centro de um confronto entre a polícia e manifestantes suspeitos de defenderem o comunismo. Sem sequer entender direito o que está acontecendo ao seu redor, o vagabundo termina preso. Mais tarde, e também por mero acaso, o personagem participa de um protesto grevista. Cadeia nele, mais uma vez. Entre os dois eventos, há um terceiro levante popular, talvez o mais relevante. É nele que o espectador testemunha a morte do pai da protagonista feminina, assassinado a tiros por, supõe-se, policiais (o responsável pelos disparos não é mostrado). Com esta cena, Chaplin se insurge contra a violência do estado em eventos similares ocorridos durante a filmagem, como em Dearborn, Michigan (março de 1932), Pixley, Califórnia (outubro de 1933) e Toledo, Ohio (maio de 1934). Mas poderia muito bem ser um comentário sobre Curitiba, Paraná (abril de 2015).

As origens da heroína da obra permitem a Chaplin levar sua crítica ao estado um pouco mais adiante. Interpretada pela encantadora Paulette Goddard (que viria a se casar com o cineasta), a garota é apresentada como a mais velha de três irmãs. Diante do desemprego do pai e de uma mãe ausente, ela precisa roubar comida para alimentar sua família. Após tornar-se órfã, a moça vê suas duas irmãs serem levadas embora sob a custódia do governo. Ela, porém, prefere viver nas ruas a ter o mesmo destino e foge, decisão que a levará a encontrar Carlitos quase na metade da película. Esta subtrama reflete a biografia do próprio cineasta. Nascido em Londres em 1889, Charles Spencer Chaplin teve uma infância difícil, marcada pela pobreza. Aos sete anos de idade, chegou a ser internado em uma instituição para garotos pobres, separado de seus pais. A aversão à ideia de se deixar crianças sob os cuidados do estado, tema já tratado pelo comediante quinze anos antes em O Garoto (The Kid, 1921), provavelmente decorre de suas memórias dessa fase. Não é necessária muita imaginação para acreditar que Chaplin teria algo (ou melhor, muito) a dizer sobre os debates em curso no país sobre a redução da maioridade penal.

Tempos Modernos aborda também o duro contraste entre sonhos e o amargo despertar da realidade. Pouco tempo depois de conhecer a órfã fugitiva, o romântico Carlitos imagina como seria viver ao lado dela. Na residência de sua ingenuidade, frutas podem ser colhidas diretamente do pé com um mero esticar do braço pelas janelas. Vacas dão leite fresco após um simples tapinha no lombo. Sua esposa o aguarda em casa após o trabalho com um suculento filé à mesa. Porém, depois de mais uma estadia no xilindró, as expectativas bucólicas do vagabundo passam longe do casebre (literalmente) caindo aos pedaços descoberto por sua amada nesse interregno. Na cena em que Carlitos conhece seu novo lar, brilha a genialidade do comediante: ao invés de tratar a descoberta com frustração e decepção, ele nos entrega humor e ternura. Ainda assim, se transpormos a oposição visual entre desejo e fato no filme para o Brasil de hoje, as duas residências nos fornecem uma excelente metáfora para a euforia dos resultados das últimas (re)eleições, que contrastam com a significativa queda de popularidade de governos petistas e tucanos algumas semanas depois do início de seus mandatos.

Por falar em metáfora, a obra nos revela os sentimentos de seu autor quanto ao cinema falado. Em franca ascensão desde o sucesso de O Cantor de Jazz (The Jazz Singer, 1927), os filmes com diálogos falados (conhecidos como talkies) foram objeto de grande resistência por parte de Chaplin. Afinal, para um artista cujo sucesso se fundamentou em seu domínio de linguagem corporal e expressões faciais, era compreensível que ele se sentisse como um dinossauro diante de um asteroide em rota de colisão com o seu mundo. Em sua película anterior, Luzes da Cidade (City Lights, 1931), as únicas concessões feitas pelo cineasta foram a inclusão de uma trilha musical sincronizada (composta por ele próprio) e poucos efeitos sonoros. Em Tempos Modernos, lançado nove anos depois que Al Jolson encantou mutidões com sua voz, havia chegado a hora de dar o braço a torcer e abandonar o cinema mudo. Mas ele faria as coisas do seu jeito. Até os últimos minutos do filme, todas as vozes humanas nele audíveis são intermediadas por artefatos eletrônicos, como microfones e rádios. Mais do que uma crítica à mecanização, Chaplin interpreta o som como um intruso, um elemento estranho na mídia em que ele desenvolveu seu talento.

O maior argumento de Chaplin contra os talkies, entretanto, seria reservado para uma das cenas finais do filme, quando Carlitos se vê forçado a cantar em um restaurante lotado para manter seu novo emprego. Em nada familiarizado com a profissão, o inseguro vagabundo conta com a ajuda da sua parceira, que anota a letra da canção nos punhos do seu paletó. De nada adianta: durante sua performance inicial sob os holofotes, o personagem rapidamente perde sua cola. É na improvisação que vem em seguida que se encontra um dos momentos mais brilhantes de Tempos Modernos. Silente desde sua criação em 1914, Carlitos apresenta sua voz ao público cantando uma versão de Je cherche après Titine, de Léo Daniderff, em um idioma inexistente, incompreensível. Ao invés de utilizar palavras, o comediante narra a historinha da música por meio de sua pantomima. Chaplin finalmente reconhece que não pode mais escapar da intromissão do som em seus filmes. Isso não significa, porém, que ele entenda o avanço tecnológico como algo sempre necessário. Basta assistirmos à sua performance para termos dificuldade em discordar.

A influência de Chaplin como comediante pode ser percebida em um sem-número de artistas de nosso tempo, de diversas nacionalidades. De Robert Downey Jr. a Renato Aragão, passando por Roberto Bolaños e Jackie Chan. Não seria descabido, após ver a Titine de Carlitos, pensar até mesmo nos Minions. E o vídeo acima não lembra também — por todas as razões erradas — canções como Bará Bará Berê Berê e Parará Tibum? (Em particular nesse último caso, ainda não consegui decidir se o clipe visa nos fazer rir ou chorar.) Sob outro ângulo, estaria sozinho em acreditar que o temor de Chaplin em perder sua influência e poder com o fim do cinema mudo é refletido perfeitamente nos interesses e objetivos dos nossos parlamentares — como tão bem exemplificam os resultados de sua malfadada reforma política? O legislativo federal é Charlie.

Mas nós também o somos, de uma maneira diferente. Ao final, o sentimento que prevalece em Tempos Modernos é o da solidariedade. A partir do momento em que se conhecem, Carlitos e a órfã agem sempre com a sua cara-metade em mente. Após conseguir trabalho como vigia noturno em uma loja de departamentos, o rapaz logo convida sua parceira para divertirem-se às escondidas. Depois, quando a garota arruma emprego como dançarina, ela rapidamente consegue serviço para seu cúmplice, recém-libertado após mais uma passagem pela cadeia. Na última cena, que também marca a despedida do personagem Carlitos das telas, a moça desesperançosa se pergunta qual o sentido de se continuar tentando, estando ambos novamente no olho da rua. O otimismo do vagabundo a reconforta, convencendo-a a sacudir a poeira e seguir em frente. No plano final, o casal caminha, de mãos dadas, em uma estrada deserta rumo a um futuro incerto. No fim de sua jornada, Carlitos termina, pela primeira vez em seus filmes, com uma companheira ao seu lado. Quase como se Chaplin afirmasse, em alto e bom som, uma verdade que se aplica tanto à época quanto aos tempos modernos: quando nada dá certo, tudo o que nos resta é uns aos outros.

Tempos Modernos está disponível no Brasil em DVD e Blu-Ray. Se você não tiver problemas em entender a língua inglesa e não se importar em gastar um pouco mais, a versão restaurada do filme lançada pela Criterion Collection vale cada centavo.

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