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#JeSuisQuelqueChose

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Montagem sobre desenho de James Ferguson para The NY Review of Books

Por Maurício Sellmann

Quando a sede do Charlie Hebdo em Paris foi invadida por dois terroristas islâmicos armados em 7 de janeiro de 2015, a edição nº 1177 do jornal satírico estava nas bancas com o escritor Michel Houellebecq na capa. Sob a manchete “As previsões do mago Houellebecq”, o escritor aparecia desdentado e vestido de Nostradamus numa caricatura em que dizia: “Em 2015, eu perco meus dentes. Em 2022, eu cumpro o Ramadã.”

A piada maldosa lembrava a gradual perda dos dentes do escritor ao longo de vinte anos — por passar tanto tempo escrevendo que não tinha tempo para dentistas, segundo ele. Mais importante, a brincadeira tinha a ver com o seu sexto romance, Submissão (Soumission, publicado no Brasil pela Alfaguara, com tradução de Rosa Freire D’Aguiar), que seria lançado no mesmo dia do ataque ao jornal. Essa sátira distópica imaginava uma França convertida ao islamismo graças a um carismático presidente muçulmano, Mohammed Ben Abbes. Tudo filtrado pelos olhos de um professor universitário, François, que chegara numa encruzilhada espiritual em sua vida pessoal.

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Houellebecq é Charlie.

A conjunção dos assassinatos dos cartunistas do Charlie Hebdo com um enredo polêmico foi o bastante para que Houellebecq fosse chamado (novamente) de racista e radical de direita. Some-se a isso a publicação, então recente, do best-seller alarmista Le Suicide Français (2014), em que o jornalista ultraconservador Éric Zemmour afirma que o declínio do país se deve a sucessivas levas de imigrantes muçulmanos. Estava armado o circo para Submissão vender e indignar. No dia seguinte aos ataques, o primeiro-ministro francês Manuel Valls declarou que “a França não é Michel Houellebecq”, numa referência ao #JeSuisCharlie (Eu sou Charlie), a hashtag de apoio aos franceses e à liberdade de expressão que se alastrou pelo mundo inteiro.

Polêmica faz parte do ar que Houellebecq respira. Em meio à sua relação de amor e ódio com seus conterrâneos, é o escritor francês vivo mais lido em seu país natal e no mundo. Já ganhou o prestigiado prêmio Goncourt de literatura e teve a história de um de seus romances transformada em música por Iggy Pop. Foi acusado tanto de libertino quanto de reacionário. De qualquer maneira, alguém cuja mãe, uma ex-hippie, publica um livro de memórias aos 80 anos só para chamá-lo de “pequeno idiota malvado”, “parasita”, “mentiroso”, e “impostor” não deve ser de todo um mau sujeito.

O alvoroço em torno de Submissão é apenas mais um na lista. Não foi a primeira vez que Houellebecq flertou com o escândalo, especialmente em relação à comunidade muçulmana. Em Plataforma (Plateforme, 2001), um empresário vê sua mulher morrer nas mãos de extremistas islâmicos que invadem um resort de turismo sexual na Tailândia (antecipando atentado semelhante acontecido em Bali um ano mais tarde). O personagem fala que “o Islã arruinou minha vida, e o Islã é algo que posso certamente odiar”. Em entrevista de promoção do livro, Houellebecq comentou que o islamismo “é a religião mais idiota” (tradução mais publicável da palavra francesa con).

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Mona Burqa. A capa da edição húngara de Submissão.

Nessa toada, parece que Submissão oferece um retrato igualmente furioso do Islã na França. De fato, a França de 2022 do livro é um fascinante espelho do país que sofreu dois atentados terríveis em 2015 – mas não do jeito que se poderia imaginar. Contrária às expectativas, a obra não traz terroristas violentos ou religiosos abertamente fundamentalistas, com exceção dos xeques sauditas de costume. Está longe de ser O Presidente Negro (1926), de Monteiro Lobato. Mesmo narrando a ascensão de um candidato muçulmano ao comando de um estado notadamente secular, grande parte do livro se dedica, na verdade, ao estudo de um personagem tipicamente francês: o intelectual de quarenta anos, praticamente um balzaquiano masculino. Por meio dele, Houellebecq provoca reflexões sobre a sociedade francesa, sua história e sua complicada relação com religião, etnia, humanismo e gênero. Os trechos a seguir, que compõem uma única passagem do livro, vão nos servir como um breve guia pelos temas e fenômenos culturais levantados em Submissão.

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François é legítimo representante da classe intelectual francesa do século XXI. Professor de literatura na Universidade Paris III-Sorbonne, não pensa com entusiasmo no próprio trabalho: “Os estudos universitários no campo das letras não levam, como se sabe, praticamente a nada”. Ele conclui que se trata de um sistema cujo único propósito é a “sua própria reprodução”. Mais tarde, ao refletir sobre a alternância de poder na França entre políticos dos partidos de centro-esquerda e centro-direita, uma constante desde o General Charles De Gaulle, chega a um veredito semelhante sobre a democracia ocidental em geral, e a francesa em particular: “não passava da divisão do poder entre duas gangues rivais”.

Ou talvez nem tão rivais como quer Houellebecq. O presidente eleito em 2012, o socialista François Hollande (cumprindo um surpreendente segundo mandato no livro), assim como outros dois chefes de estado franceses recentes, vieram da mesma universidade. A École Nationale d’Administration (ENA), com suas turmas exclusivas de apenas 80 alunos por ano, formou muitos – a maioria, na verdade – dos personagens mais influentes da França desde o pós-guerra, entre empresários e políticos. Criada para trazer excelência ao serviço público e institucionalizar a meritocracia, acabou se tornando o estabelecimento em que as mesmas famílias com os mesmos sobrenomes dos mesmos arrondissements (distritos) nobres de Paris colocam seus filhos. Trata-se de um nível de concentração de poder e ideias muito maior que o da turma de Oxbridge (o graduados pelas universidades de Oxford e Cambridge) na Inglaterra. Até mesmo o presidente muçulmano de Submissão formou-se com honras na ENA.

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Hollande, o enarquista. Foto de Etienne Laurent/AFP.

Os énarques, como são chamados os alunos da ENA, compõem a elite da França, juntamente com os pupilos de duas outras restritas instituições de ensino superior, conhecidas em conjunto como grandes écoles, a Polytéchnique e o Instituto de Ciências Políticas de Paris. Em 1950, alunos da classe operária formavam 29% do corpo discente das grandes écoles; em meados da década de 90, apenas 9%. O resultado é um universo cada vez mais fechado, com enorme promiscuidade entre os setores político e econômico-financeiro. Como o filósofo Pierre Bourdieu já alertara na década de 60, usando palavras que Houellebecq ecoou em Submissão, a classe dominante na França se tornou uma casta autorreplicável.

A situação não é muito melhor entre os intelectuais franceses atuais. Se anteriormente a França exportava pensadores desafiadores, de personalidades esfuziantes e combativas (Sartre, Camus, Barthes, De Beauvoir, entre muitos outros), hoje – com poucas e honrosas exceções, como Alain Badiou – perdeu sua posição de destaque no mundo das ideias, dominado por gente de nome muito pouco francófono, como Slavoj Zizek, Zygmunt Bauman, Peter Singer e Martha Nussbaum. Na França, onde filósofos costumam ser mais famosos que a Andressa Urach no Brasil, quem é o mais conhecido atualmente? Bernard-Henri Lévy, filho de empresários e grande amigo de poderosos, cuja maior distinção é repetir propostas do ex-presidente Nicolas Sarkozy – além de ter usado como base para um de seus livros um filósofo de mentirinha.

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Michel e Bernard: os homens que a França adora odiar. Foto: Olivier Laban-Mattei/AFP.

Numa compilação de correspondências suas com Lévy, Ennemis Publics (Inimigos Públicos, 2008, inédito no Brasil), Houellebecq descreveu-o como “um filósofo sem nenhuma ideia original mas com excelentes contatos”. Em Submissão, ele resume o distanciamento dos novos pensadores: “o intelectual na França não precisa ser responsável, isso não fazia parte da sua natureza”. O meio de François no livro não é só restrito, como ele argumenta, mas rarefeito.

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Com a ascensão de Ben Abbes em 2022, as universidades públicas francesas fazem um enxugamento de seu quadro de professores. Somente ficarão aqueles que se converterem ao islamismo. François aceita entrar num programa de demissão voluntária que lhe dará aposentadoria integral e tempo para fazer o que quiser. A esta altura, porém, sua vida é um vazio que ele tenta preencher com visitas mais frequentes a prostitutas. O YouPorn já deixara de dar conta de seus anseios. Se Gustave Flaubert dizia que era preciso estar de membro em riste para escrever, François tenta manter o seu em pé para sobreviver. Em vão. Sendo cada vez mais difícil alcançar o prazer, o único motivo que tem para viver, pensa em se matar. Sua vida em declínio, por sua vez, remete à do velho continente, que precisa se acomodar ao islamismo cada vez mais popular. A certa altura, o novo reitor da Sorbonne o avisa que a Europa decadente “já cometera seu suicídio”.

“Suicídio nacional” pode ser uma ideia em destaque no imaginário francês atual, mas está longe de ser moderna. Em 1783, alguns anos antes da revolução que defenestraria o rei Luís XVI, Sean M. Quinlan escrevera que os franceses andavam lamentando que “uma geração fraca e menos vivaz havia substituído, sem êxito, aquela brilhante raça… cujos corpos eram mais robustos, limpos e altos que aqueles dos povos civilizados de hoje”. Ou Max Nordau, no fim do século XIX, avisando que só era possível compreender os artistas impressionistas por meio da “histeria e degeneração”. E, claro, Louis-Ferdinand Céline, que escreveu no seu Viagem ao Fim da Noite (Voyage au Bout de la Nuit, 1932): “Ficamos com as mãos todas meladas com o que sobra de espírito, ficamos pegajosos, grotescos, desprezíveis, fedorentos. Vai tudo desabar, Ferdinand, tudo acabará desabando”. A França tem estado em declínio por tanto tempo, que, no dia em que deixar de estar, os franceses irão se matar en masse.

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De Céline a Zemmour, um suicídio sem fim. Fotos: Agence de Presse Meurisse e BestImage.

Esta melancolia, que se reproduz na vida privada, também constitui marca registrada dos franceses. É o paradoxo de um país obstinadamente laico que não se cansa de buscar respostas na espiritualidade. Na década de 1830, ausente uma religião oficial, cada um praticava suas crenças como lhe convinha. Foi a época do Novo Cristianismo de Saint-Simon e dos católicos sociais. No século XXI, o neoanarquista Michel Onfray criou uma espécie de culto ateu em que o falo é uma figura central, ou seja, o bom e velho paganismo de priscas eras.

A relação do francês com a fé sempre foi um tanto esquizofrênica. A basílica de Sacré-Coeur, no alto de Montmartre, começou a ser construída em 1873 para comemorar a volta do catolicismo conservador e “expiar os pecados” da Comuna de Paris (1871), uma experiência socialista radical. Pouco tempo depois, na década de 1880, aprovaram-se leis para banir a educação religiosa no sistema público. E, claro, há a recente lei do governo Sarkozy que baniu o uso de símbolos religiosos nas escolas, do hijab muçulmano ao kippah judeu – de certa forma, elevando o secularismo à categoria de missão de fé.

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Capa da edição brasileira de Às Avessas com autorretrato do pintor František Kupka, curiosamente muito parecido a Houellebecq.

Nesse contexto, Houellebecq escolheu um ídolo bastante adequado para François: o escritor Joris-Karl Huysmans, sobre quem o professor escrevera sua dissertação de doutorado. Precursor dos modernistas franceses, Huysmans perseguia o êxtase nos prazeres estéticos. Seu livro mais famoso, Às Avessas (À Rebours, 1884), passou para a história como, nas palavras do poeta José Paulo Paes, a “bíblia do decadentismo”. Terminou se rendendo àquela outra bíblia e tornou-se noviço oblato na abadia de Ligugé, em 1900.

A trajetória de François remete tanto à de Huysmans como a de seu alter-ego em Às Avessas, o aristocrata Des Esseintes. O personagem se isolou do mundo para dedicar-se a experiências sensuais extremas, entre elas a criação de um piano em que cada tecla ativava um perfume diferente. François fixa-se no sexo atrás de “momentos mágicos”. Habitualmente, mantém um caso com uma estudante por um ano e troca-a por outra no período letivo seguinte. A última na lista é Myriam, filha de judeus, com quem tem fantasias de formar um lar. Em paralelo, tenta prostitutas como Rachida e Luisa, “uma dupla danadinha e endiabrada”. Como não resolve o vácuo na sua vida, visita locais de peregrinação religiosa em busca de uma iluminação semelhante à de Huysmans. Houellebecq afirmou que o título inicial do romance seria Conversão, mas seu personagem parecia se recusar a fazê-lo. Entra em cena um outro professor que tentará convencer François de que a cosmogonia islâmica é “a criação divina perfeita”. O próprio escritor, que sempre usa partes de sua biografia para compor personagens, antes se declarava ateu em suas entrevistas. Passou a se identificar como agnóstico na promoção de Submissão.

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François assiste ao desenrolar dos acontecimentos políticos da distância segura de seu apartamento, ou, mais longe ainda, de uma temporada na bucólica região de Lot, interior da França. Não deixa de ser engenhoso que Houellebecq use truques de narrativas utópicas para contar essa história. Numa utopia típica, um visitante chega a uma terra distante, onde é guiado pelos locais que o apresentam a uma sociedade perfeita. A maioria dos personagens não passa de “cabeças falantes”, sem profundidade psicológica, cujo único objetivo é descrever ao visitante aquele admirável mundo novo. Assim também em Submissão, onde diversos personagens – um jovem professor universitário, um ex-funcionário do serviço de inteligência francês, a chefe do departamento de François, entre outros – aparecem com a única função de tapar os buracos narrativos que o recurso à TV, internet e jornais não consegue suprir. O próprio Ben Abbes é uma espécie de mágico de Oz, misterioso e distante, manipulando as vidas de todos por trás da cortina.

Misantropo, François comporta-se como um visitante em sua própria terra, relacionando-se com seus semelhantes o mínimo indispensável. Por isto, não há no livro personagens ou incursões além do cordão dourado da Périphérique — a rodovia que circunda Paris, separando-a geograficamente das banlieues, os subúrbios pobres e barra-pesada, de maioria negra e árabe (vindos das ex-colônias no norte da África). A possível exceção é o cortês vigia senegalês da Sorbonne, praticamente um móveis-e-utensílios da universidade. François existe num mundo à parte. Antes que ativistas entrem em colisão nas ruas, ele deixa a cidade rumo ao sudoeste da França, proporcionando a Houellebecq a chance de exercitar seu humor afiado, tirado de justaposições inesperadas: “Para ser sincero, não conhecia nada do sudoeste, a não ser o fato de que é uma região onde se come confit de pato; e o confit de pato me parecia pouco compatível com a guerra civil.”

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Cena do filme La Haîne, sobre a vida nas banlieues.

Essa guerra civil não tem nada de profético. Já está implícita nas ruas francesas dos dias de hoje, onde compatriotas, de fato, não se enxergam como “irmãos”. Jovens à esquerda e à direita se veem traídos por uma sociedade que não reconhecem, e procuram uma identidade em outro lugar. Se, em 1968, o desencanto com o Estado conduziu-os às ideologias de esquerda e aos protestos de estudantes e trabalhadores, hoje eles não se identificam com nada e ninguém da sua terra. Pesquisa realizada em 2014 mostrou que um quarto dos jovens franceses até 25 anos apoiava o Estado Islâmico – um número muito maior que os cerca de 8% de muçulmanos na população geral do país. A França é o maior fornecedor de combatentes para o Estado Islâmico na União Europeia.

Após os atentados de 13 de novembro, cuja autoria foi reivindicada pelo Daesh (Estado Islâmico), aumentaram exponencialmente os assédios violentos a mulheres usando hijab (o véu muçulmano). Mesquitas em todo o país foram depredadas, não importa que as radicalizações dos terroristas franceses tenham ocorrido maciçamente em prisões e não nos locais de culto religioso. Paralelo a isso, a proporção de crimes de ódio contra judeus explodiu nos últimos anos. Embora o antissemitismo também floresça entre os muçulmanos das banlieues, os perpetradores costumam ser caucasianos radicais de direita. Quem está nas margens elege alguém para odiar, para lucro e deleite de alguns. Veja-se, por exemplo, a grande família de Jean-Marie Le Pen. Ele é fundador do partido de extrema direita Frente Nacional e pai de Marine Le Pen, sua atual líder. Também é padrinho de um filho de Dieudonné M’bala-M’bala, o comediante franco-camaronês que fez fama e fortuna na base da piada antissemita, aparentemente bastante popular na França.

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Em família: Dieudonné e o compadre Le Pen. À direita, Marine Le Pen. Fotos: SIPA.

Como personagem de Submissão, Marine Le Pen se afasta da estratégia de praxe — demonizar imigrantes — para vestir a camisa da laïcité, a condição laica que se crê ser a característica fundamental da moderna nação francesa. Ela tenta ganhar as eleições pintando-as como uma luta entre a religião e o secularismo, mas um pouco do velho ranço ainda está lá. Le Pen convoca uma grande passeata pelas ruas de Paris, com cartazes onde se lê seus lemas de campanha: “Nós somos o povo da França” e “Esta é a nossa casa”. Enfim, nós contra “o outro”, a mesma ansiedade sobre identidade nacional que catapultou o livro de Éric Zemmour à lista dos mais vendidos no país em 2014. Todos esquecem que a economia do “nós” precisa do “eles”, especialmente num momento em que a população francesa envelhece e sua taxa de natalidade cai.

No obra de Houellebecq, os chamados “identitários” formam uma grande salada maluca de católicos conservadores, laicos de esquerda e fascistas de todo gênero. De inspiração maçônica, conspiram secretamente para provocar uma “guerra civil” caso Ben Abbes chegue ao poder. Em comum, todos são, como diriam os moradores das banlieues, françaises de souche (franceses de raiz), isto é, gente cujos antepassados remotos nasceram e cresceram em solo francês. Os quebra-quebras que volta e meia acontecem no lado de lá da Périphérique normalmente são uma reação de quem, mesmo tendo nascido ali, nunca foi realmente considerado nativo.

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Fora do livro: a banlieue de Clichy-sous-Bois. Foto: Corentin Fohlen/Divergence.

O resultado é exclusão. A taxa de desemprego nas banlieues é duas vezes maior que a média nacional. Como se isso não bastasse, muçulmanos sofrem discriminação em relação a cristãos em entrevistas de emprego. Com os atentados de 13 de novembro, a tendência para a população majoritariamente magrebina da periferia é piorar. Em janeiro, o primeiro-ministro Valls falava num verdadeiro apartheid, mas só muito recentemente o estado francês começou a tentar reverter este processo por meio de políticas públicas. A certa altura do livro, François diz: “Talvez seja impossível, para pessoas que viveram e prosperaram em determinado sistema social, imaginar o ponto de vista dos que, nunca tendo tido nada a esperar desse sistema, encaram sua destruição sem nenhum terror especial.”

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No fundo, François é um romântico carente. Quer constituir família e amar. Num almoço com a namorada e os pais dela, ao ver aquela “tribo familiar” unida, precisa se esforçar para segurar o choro. Passa longos momentos comparando sua mulher ideal com a de Huysmans, que morreu sem alcançá-la. O ideal feminino de Submissão se traduz numa mulher num pedestal.

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Mulher amada e idolatrada: Clotilde de Vaux.

Um dos pais da sociologia moderna, Auguste Comte – que já se infiltrou em dois outros artigos deste Salsaparrilha – tinha ideia semelhante sobre o lugar da mulher no estágio mais avançado de sua sociedade utópica. Em seu Uma Visão Geral do Positivismo (1848), Comte adverte que “poder espiritual… começa com a influência das mulheres na família; a seguir, os pensadores dão-lhe a forma de um sistema”. Para a mulher, a família seria “a sua maior e mais importante esfera de trabalho”. Essa mulher platônica ganhou forma depois de uma paixão (não-correspondida) de Comte pela irmã de um aluno, Clotilde de Vaux. Vítima cedo da tuberculose, ela inspirou a utopia do pensador francês e uma religião humanista em que a veneravam como “Santa Clotilde”. Recentemente, Houellebecq se declarou um “comteano”, mas não deu maiores explicações. Seu François quer o sexo e a família. Ironicamente, é o islamismo, com sua promessa de patriarcado total, que pode lhe oferecer os dois na forma de múltiplas esposas que sabem cozinhar, dar prazer e, acima de tudo, obedecer. De fato, no livro, as mulheres vão deixando mansamente a vida profissional para se recolherem ao lar.

Difícil engolir que toda a população feminina francesa abandone seus empregos e recue para o seio familiar de uma hora para outra. Houellebecq explica isto por meio de uma injeção de dinheiro da Arábia Saudita para estimular essa mudança. No entanto, isso não dá conta da repentina passividade das francesas, inclusive muitas muçulmanas, que são independentes e, presume-se, desejam continuar assim. Este é um dos maiores defeitos narrativos em Submissão. Com exceção de Marine Le Pen, as mulheres do livro, até mesmo as lésbicas e feministas, aceitam tudo muito facilmente. Talvez tenham se mudado para o Canadá. Toda essa subtrama está mais para fantasias de Houellebecq. Dele e de toda a torcida do Paris Saint-Germain.

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Homem amado e idolatrado: Dominique Strauss-Khan. Foto: AFP.

Com toda a sua imagem cuidadosamente construída de liberação sexual e racionalidade, a França continua firme como uma sociedade machista. Isto ficou claro, há alguns anos, com o caso Dominique Strauss-Kahn. Diretor do FMI, ele era o favorito para as eleições de 2012 até que uma acusação de sexo oral forçado com uma camareira num hotel de Nova York o derrubou. Então, ficou-se sabendo de episódios semelhantes, dos quais toda a imprensa tinha conhecimento e preferiu acobertar. Nove entre cada dez figuras públicas, quase sempre homens, vieram em defesa de Strauss-Kahn, incluindo o indefectível Bernard-Henri Lévy. Histórias de assédio sexual no meio político começaram a pipocar na imprensa, assim como a disparidade de salários entre os gêneros, de fazer inveja a qualquer país menos desenvolvido. A grande piada de Submissão é que o islamismo tradicional vem para realizar o sonho da França patriarcal secular. François vê colegas passando rapidamente do ateísmo à fé muçulmana em troca de uma esposa submissa a mais e problemas de menos.

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Submissão está sempre pegando caminhos diferentes dos que se esperam. François segue os passos de Huysmans, mas só até certo ponto. Colocando-o como narrador da sua própria história, Houellebecq dá ao leitor a chance de empatizar com ele e rir dele ao mesmo tempo. O misto de sátira política com narrativa utópica serve um final ambíguo, que parece se inspirar em pesadelos de ficção científica como As Esposas de Stepford (The Stepford Wives, 1972), de Ira Levin, ou mesmo Admirável Mundo Novo (Brave New World, 1932), de Aldous Huxley. Nestes livros, a promessa de uma normalidade feliz cumpre-se como uma prisão que deixa o leitor desconfortável.

Como toda ficção científica, porém, corre o risco de ser atropelado pela História. A compra de universidades francesas pela Arábia Saudita no livro encontra inspiração no fato de que a Casa de Saudi financia escolas muçulmanas Wahhabistas (de corrente fundamentalista) ao redor do mundo enquanto mantém negócios de armas milionários com a França. Contudo, desde a publicação do livro, ficou mais difícil para os sauditas continuar a esbanjar dinheiro neste ritmo. Eles enfrentam batalhas com inimigos em casa, no Iêmen, na Síria e no Iraque – todos monstros radicais que eles mesmos criaram ou ajudaram a criar, como no caso do Estado Islâmico. Além disso, a grande fonte de renda dos sauditas, o petróleo, começa a secar com a queda global do preço dos commodities, sem previsão de reversão à vista, e a crescente pressão internacional para mudança de matriz energética. No mais, com os recentes atentados em Paris, a possibilidade de que Marine Le Pen se torne presidente da França em 2017 se tornou assustadoramente menos remota – mesmo com a derrota do seu partido no segundo turno das eleições regionais de dezembro de 2015.

LEITURA---Submissão---31-03-15De qualquer maneira, Submissão deve ser lido menos como um exercício de futurologia do que como uma janela para a sociedade francesa contemporânea. Na França, Houellebecq é o romancista que, para o bem e para o mal, melhor sabe captar as ansiedades do dia e transformá-las em narrativa, como ele já provou em A Possibilidade de Uma Ilha (La Possibilité d’une Île, 2006), entre outros. Insere-se num grupo seleto de escritores que inclui o norte-americano Jonathan Franzen e o inglês Ian McEwan. No Brasil, Bernardo Carvalho (Reprodução) e Fernanda Torres (Fim) são ótimos candidatos ao posto que já foi de Rubem Fonseca. Neste sentido, Submissão sente o pulso de um país em crise de identidade. Perplexa sobre o que é e o que quer ser, a França de Houellebecq cogita aposentar o livre arbítrio em favor de uma certa divindade, acabando de vez com essa complicação de liberdade, igualdade e fraternidade. On va dire ça comme ça.


 

Os livros de ficção de Michel Houellebecq estão disponíveis em português pelas editoras Alfaguara, Record e Sulina. À Deriva, de Huysmans, foi publicado recentemente no Brasil pela Penguin Companhia, com tradução de José Paulo Paes.

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Houellebecq deseja saúde a todos. Foto de Benoit Tessier/Reuters.

E aqui nos despedimos de 2015—mas só de 2015. Se gostou do artigo, deixe seu comentário abaixo ou espalhe a palavra. Converta-se a este blog no Medium, no Twitter e no Facebook. Você pode, ainda, entrar em contato conosco através do endereço eletrônico revistasalsaparrilha@gmail.com. Bonne année.

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