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Do Que Vem Antes: um filme, um mundo

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West Side Avenue (Batang West Side, 2001). Duração: 315 minutos. Evolução de uma Família Filipina (Ebolusyon ng isang pamilyang Pilipino, 2004), 540 minutos. Melancolia (Melancholia, 2008), 450 minutos. Norte, O Fim da História (Norte, hangganan ng kasaysayan, 2013) até que é curtinho, 250 minutos. Não é à toa que Lavrente “Lav” Indico Diaz é conhecido carinhosamente pela turma da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo como “Leva Dias”. Seu novo filme, Do Que Vem Antes (Mula sa kung ano ang noon, Filipinas, 2014), não é diferente: cinco horas quase seis.

Seria tentador fugir de um filme deste cidadão como o diabo da cruz. Por isso, este artigo já enfrenta esse problema de cara para tirá-lo do caminho. Em entrevista à Folha de S. Paulo, Diaz afirmou que não faz cinema pelo público; faz cinema pelo cinema. “Eu quero partilhar essa mídia, quero partilhar minha visão do meu pequeno jeito próprio. Quero melhorar a humanidade através do meu cinema”, explicou. Ninguém termina um filme de Diaz uma pessoa melhor – embora milagres aconteçam – mas você deixa o cinema como quem chega do aeroporto após uma longa e fascinante viagem.

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Lav Diaz em ação.

A verdade é que existem muitas formas de se fazer cinema. O Candidato Honesto (2014) não é a única. O crítico francês André Bazin afirmou que o cinema almeja ser uma cópia integral da realidade desde que nasceu – o que ele chama de “mito do cinema total”. Diaz oferece um tipo alternativo de realismo total, capaz de engolir o espectador.

Com seis horas nas costas, você poderia argumentar, Do Que Vem Antes podia ter sido transformado numa minissérie para TV. Infelizmente não, não podia. O novo trabalho de Diaz – assim como vários dos títulos citados acima – é uma imersão única que só o ritmo de um filme seria capaz de impor. Livre das necessidades típicas da linguagem televisiva (a divisão em três atos, os ganchos ao fim de cada bloco narrativo, etc.) e das exigências do cinema comercial (duração curta, ação constante, ritmo acelerado), Diaz pode convidar o espectador para mergulhar numa vida nova. Com a palavra, o próprio diretor:

“Eu quero mostrar a vida no cinema, você tem de ser capaz de ver a tela toda e também você tem que pensar que além da tela existe a vida. É um grande universo, não é apenas a tela ali. Quero que meu cinema seja a tela viva.”

Em Do Que Vem Antes, apesar dos longos planos de câmera estática, a tela explode em vida. O campo onde a ação se passa é tudo menos silencioso. A natureza e os elementos chegam a ser ensurdecedores. Nas primeiras cenas, a paisagem campestre é inundada pelo barulho da chuva, uma orquestra de cigarras e o vento estalando as folhas das bananeiras. 

Outros ruídos logo vão ser ouvidos também. Acontecimentos estranhos perturbam a rotina de um distante barrio das Filipinas. Casas são misteriosamente queimadas, pessoas, inclusive forasteiros, e animais aparecem mortos sem que se saiba quem são os responsáveis. No meio de tudo isso, o pequeno povoado experimenta uma gradual transformação que, aos poucos, vai minar a sua própria existência.

 

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Karenina Haniel como Joselina.

Aos poucos, vamos conhecendo os personagens centrais da narrativa. Seu Sito (Perry Dizon, presença constante nos filmes do diretor), um homem já idoso que vive e cultiva sua roça nos arredores do vilarejo. Seus filhos já estão casados e com filhos também; alguns vivem nas redondezas. Sito divide sua tapera com o garoto Hakob (Reynan Abcede), que ele adotou em condições misteriosas esclarecidas ao longo da trama. Itang (Hazel Orencio, prêmio de melhor atriz no Festival de Locarno) vive para cuidar da irmã com deficiência mental grave, Joselina (a excelente Karenina Haniel). Para sobreviver, Itang realiza sessões de cura espiritual e com ervas auxiliada por Joselina, a quem os locais atribuem poderes mágicos. Cuidando de todos na medida do possível está o sensato Padre Guido (Joel Saracho). Heding (Miles Canapi), vendedora ambulante e futriqueira-mor da aldeia, e Tony (Roeder), um produtor de aguardente, também terão participação importante no drama.

 

A ação começa em 1970 e se estende até 1972, início do duro período ditatorial sob o corrupto Ferdinand Marcos, que duraria até 1986, com a fuga dele para o Havaí. O ditador pode ter ido embora, mas os efeitos perniciosos de sua temporada no poder – a corrupção endêmica, o agravamento da pobreza generalizada – ainda se fazem sentir nas Filipinas até hoje. Basta acompanhar as notícias do último grande tufão a assolar o arquipélago para se ter uma ideia. Do Que Vem Antes cuida do que veio antes que semeou o que aí está.

Diaz evoca de maneira eficaz o momento histórico, mas não se engane com o seu estilo “parado”. Há escolhas estéticas bem cuidadosas por trás de tudo. Ao contrário dos outros moradores do barrio, os meninos, liderados por Hakob, merecem várias tomadas de longe, como pequenos pontos na paisagem, enquanto correm e brincam nos campos e matas. Os demais moradores aparecem sempre em externas, num pátio ou ao ar livre, uma sugestão de que estão todos à mercê dos elementos, de forças que eles não podem controlar. Por outro lado, Diaz filma Joselina quase sempre em cenas internas, por trás de aberturas de porta, como se fosse um animal numa jaula sendo observado pelo espectador. 

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Um exemplo da narrativa em vários planos do diretor.

Outro recurso favorito do diretor é a composição de cenas em dois ou mais planos de profundidade. Um bom exemplo disto é uma sequência toda enquadrada a partir da janela de uma cabana aparentemente abandonada. Pela janela – como por uma tela de cinema –, vemos um personagem caminhando ao longe, na mata, em direção à praia. Logo, um outro personagem surge, agora mais próximo da janela, e segue o anterior. Por fim, um terceiro personagem surge de dentro da cabana para seguir os outros dois. Estamos tão entranhados no filme que tínhamos adotado o ponto-de-vista do último personagem aquele tempo todo.

Mencione-se também a fotografia luminosa em preto-e-branco, do próprio Diaz. Há tantos matizes de cinza que, em determinados momentos, tem-se a impressão de que os campos possuem uma coloração verde esmaecida na tela. O diretor/cinematógrafo trabalha com imagens de alto contraste, fazendo com que até pequenas diferenças de tom nas plantas da mata exuberante sejam notadas. As folhagens, aliás, fazem às vezes de uma grande máscara para filtrar a quantidade de luz natural em cada cena. Na sequência com os meninos brincando, alguns dos longos planos abertos são filmados em contraluz. Assim, Jakob e sua turma são transformados em personagens num teatro de sombras chinês: pequenas silhuetas a correr pelo “cenário” de árvores e colinas.

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Teatro de sombras.

Essa artificialidade calculada, em vez de anular, realça o naturalismo das interpretações e a força das locações. De repente, aquele buraco nos cafundós das Filipinas se transforma num lugar mítico, em que coisas fora do comum podem facilmente acontecer. A última cena termina a meio caminho de um acontecimento que bem pode ser explicado como sobrenatural, ainda que o filme tenha os pés firmados na razão.

Os eventos misteriosos frequentes (o conceito de frequência num filme de quase 6 horas é diferente do de um filme de 90 minutos) no decorrer de Do Que Vem Antes fizeram com que os críticos logo o comparassem com A Fita Branca (Das weiße Band – Eine Deutsche Kindergeschichte, 2009), no qual igualmente estranhos eventos, de caráter quase ritualístico, tomam conta de uma aldeia no norte da Alemanha nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Mas há uma grande diferença entre os dois: Haneke localiza no próprio seio da sua vila a origem de todos os males. Diaz, por outro lado, trata seu povoado, a princípio, como uma comunidade de bons selvagens cuja existência pobre mas bucólica, em contato com a terra, sofre ameaças externas. Em Do Que Vem Antes, a História invade a aldeia, provocando um clima de angústia sufocante. Dessa forma, acelera no lugar processos latentes de autodestruição.  

Talvez Do Que Vem Antes encontre uma alma gêmea mesmo no turco Era Uma Vez na Anatólia (Bir Zamanlar Anadolu’da, 2011). No filme de Nuri Bilge Ceylan, vencedor do Prêmio do Júri em Cannes, passamos a maior parte do tempo tendo o olhar dirigido de forma enganadora para a desolada e imponente paisagem da região da Anatólia, e para os procedimentos policiais e judiciais sobre um crime ali cometido. No final, porém, percebemos que deveríamos estar olhando com mais vigor para dentro dos personagens – especialmente para dentro de um, onde se escondem fantasmas de muitos anos. Somente quando esses traumas são revelados, conseguimos montar a real paisagem que estava ali no filme desde o início.

À medida que Do Que Vem Antes progride, fica claro que a natureza exuberante que envolve aquele barrio é uma extensão dos seus habitantes, cuja vida interior é muito mais rica e trágica do que as cenas de aparente rotina fazem, à primeira vista, supor. Quando, lá pela última hora, o inesperado irrompe, tudo o que assistimos antes ganha nova configuração. O espectador muda seu olhar de direção – agora a partir de dentro dos personagens – e a sua imersão no universo do filme é completa.

O certo é que o filme não termina no ponto em que convencionalmente poderia. Diaz nos deixa ainda algum tempo para compreender melhor a nova ordem que substitui a antiga. Não se trata de uma viagem de excursão às Filipinas: o diretor quer que você entenda o lugar a fundo. E essa compreensão vai se infiltrando na pele do espectador aos poucos, como a fumaça da pequena fogueira da última cena.

Em 2011, Terence Malick realizou A Árvore da Vida (The Tree of Life), onde o amor maternal é comparado a uma força criadora primordial, que fez a vida surgir e evoluir na Terra. No particular, Malick encontrou um universo. Em Do Que Vem Antes, Diaz cria o seu próprio universo de bolso, fazendo o belo e o horrível da humanidade brotarem da própria terra. E você esteve lá, vendo tudo isso de perto.

(Por quase seis horas.)

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Do Que Vem Antes entrou em cartaz no país no dia 25 de fevereiro.


 

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