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Os anjos maus da nossa natureza – parte 2

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Por Maurício Sellmann

A primeira parte deste artigo, sobre multidões e manadas, pânico e mercados, ódio e linchamentos, Fúria e Strange Fruit, você encontra aqui.

“Por qualquer dá cá aquela palha, os estúpidos jupiterianos se reúnem na praça pública e matam a pauladas, a fogo, à fouce, sem forma de processo alguma, sob o pretexto de que o ‘gato’ queria casar ou namorava uma filha deles. Lá se chama banditismo e é coisa parecida com o linchamento yankee.”

(Congresso Pan-Planetário, de Lima Barreto, 1920.)

Guarulhos, São Paulo, maio de 2014. Um boato, acompanhado de uma foto, espalha-se na Internet. Uma mulher estaria sequestrando crianças da área para praticar magia negra. Num sábado, uma dona de casa de 31 anos, ao parar para conversar com uma criança, é agredida por dezenas de pessoas que a tomam pela  descrição no boato. A vítima morre no hospital dois dias depois. Nunca houve a tal sequestradora de crianças do Guarujá.

“Nos últimos 60 anos, um milhão de brasileiros participaram de linchamentos”, escreveu o professor José de Souza Martins em Linchamentos, a Justiça Popular no Brasil (2015), resultado de 20 anos de pesquisa sobre o assunto. Pelo seu levantamento, há em média um linchamento por dia no país. O último caso a chamar atenção pode ter acontecido no Maranhão, mas o campeão nacional na categoria é São Paulo. Pelos dados do Núcleo de Estudos da Violência da USP, entre 1980 e 2010 ocorreram 662 linchamentos no Estado. Como esses números foram compilados de notícias na imprensa, presume-se que a quantidade seja maior. 

Uma rápida conversa nas ruas ou uma visita às seções de comentários a notícias como a da morte em Guarujá vão revelar o mesmo motivo para o justiçamento da turba, segundo a sabedoria popular: “O povo não aguenta mais tanta impunidade.” Certamente, a sensação de insegurança influi no comportamento de feras acuadas. No entanto, se a constância do medo for excluída da equação, a variação estatística anual errática e o histórico de causas imediatas do fenômeno não corroboram a explicação. O primeiro caso registrado no país, em Salvador (a Bahia é o terceiro colocado no ranking da USP), teve motivação religiosa: um líder messiânico foi maltratado e estrangulado por seus próprios seguidores em 1585. No século XVIII, especialmente em Minas Gerais, o sentimento nativista movia os agressores. No século XIX, linchava-se negro e branco protetor de escravos fugidos. No início da República, as vítimas eram supostos monarquistas. 

Além dos métodos de violência, o único padrão a emergir daí é a diferença entre atacantes e atacados. A vítima é sempre o Outro, aquele que não se conforma nos moldes do grupo dominante, seja por diferenças étnicas, culturais ou políticas. Deve ser eliminado para não contaminar o bando. Luis Vicat, ex-comissário de polícia de Buenos Aires, fala em “objetificação” da vítima: ela não é um de nós, os agressores, portanto não a reconhecemos como humana.

Capa do jornal Extra para o linchamento do Maranhão em junho de 2015.

Capa do jornal Extra para o caso de linchamento no Maranhão em julho de 2015.


O fim de Frankenstein (1931), de James Whale, ilustra bem essa dinâmica. Ao contrário do romance original de Mary Shelley, a Criatura do filme (Boris Karloff) é tudo menos articulada. Com emoções de criança e movimentos desengonçados, comunica-se por grunhidos. Após acidentalmente provocar o afogamento de uma garotinha, essa aberração vai ser perseguida pelos aldeões com o aval do burgo-mestre. Nada mais adequado que, no clímax da caçada, a Criatura seja queimada viva num moinho por homens brandindo tochas aos gritos de “assassino”. Da mesma forma que Fritz Lang com Fúria, Whale joga com a ambiguidade da situação: aqueles que veem a Criatura como um animal monstruoso comportam-se com selvageria animalesca. Olho por olho.

Mais de 30 anos depois, em plena época da contracultura, George A. Romero criaria uma nova alegoria com A Noite dos Mortos Vivos (Night of the Living Dead, 1968). O herói do filme, Ben (Duane Jones), é um negro – e, ainda mais subversivo para a época, bem articulado – que sobrevive a uma horda de mortos-vivos somente para ser morto por uma horda de justiceiros, que o confundem com mais um zumbi. Não importa o que faça, Ben é um homem à margem numa sociedade calcada em grupos uniformes, capazes da pior violência contra o que for estranho. 

Anos mais tarde, Romero relacionaria os zumbis a uma manifestação violenta de conformismo da sociedade de consumo. Ele ambientou O Amanhecer dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978) num shopping center. Efetivamente, ao invadirem o prédio, os zumbis reconheciam seus antigos padrões de vida nos corredores e nas vitrines das lojas. Assim, era preciso tirar os estranhos vivos de lá – e comê-los, claro, pois eles são caça. Guerra Mundial Z (World War Z, 2013), de Marc Forster, pega a metáfora de Romero para oferecer uma imagem mais chocante dessa violência grupal: milhares de zumbis se amontoam feito bestas-feras excitadas para escalar as muralhas de Jerusalém e trucidar todos lá dentro. Comportaram-se como zumbis também os moradores de Springfield ao descobrirem que Homer Simpson havia sido o responsável pelo desastre ambiental que isolou a cidade em Os Simpsons – O Filme (The Simpsons-The Movie, 2007). Com tochas na mão, todos marcham à casa de Homer, gritando “Mata! Mata! Mata!” e concluindo os seis graus de separação de Frankenstein.

É nos quadrinhos da DC Comics, porém, que a dinâmica das turbas justiceiras encontra uma tradução mais intrigante. Em 1960, Gardner Fox e Mike Sekowsky criaram Starro. Tratava-se de um alienígena com a forma de uma estrela-do-mar gigante, capaz de controlar a mente das pessoas. Em 1991, numa história de Justice League Europe 24-28 (publicada no Brasil em Liga da Justiça 56-57, pela Editora Abril), o vilão cria um exército de humanos catatônicos, despidos de toda individualidade. Sob suas ordens, o populacho devia derrotar a Liga da Justiça e dominar o mundo. A uniformidade desses modernos zumbis reflete-se na sua aparência: milhares de pessoas cujas faces estão cobertas por estrelas-do-mar com um olho no centro, esporos do Starro original.

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A imagem de uma multidão unida em torno de um só propósito, mas também com a mesma cara, remete à síntese dada ao assunto por Gustave Le Bon em seu influente ensaio de 1895, La Psychologie dês Foules (A Psicologia das Massas): “Um indivíduo numa multidão é um grão de areia em meio a outros grãos de areia, os quais o vento agita à sua vontade.” Outros psicólogos e cientistas sociais rebateram afirmando que não havia a chamada mentalidade grupal a limitar o alcance da personalidade individual.

Le Bon estava errado sobre diversas coisas, mas aparentemente acertou na sua visão da manada. Um experimento de 2006, realizado por biólogos das universidades de Leeds e Hull, Inglaterra, colocou várias pessoas numa sala sem qualquer informação, rodeados por alguns indivíduos com instruções sobre o que deviam fazer. Ordenaram que os participantes caminhassem pela sala sem jamais se desgarrar do grupo. Os não-instruídos não tinham conhecimento algum da presença de algum instruído. O objetivo do estudo era medir a velocidade da formação de consenso em um contexto de cooperação dentro de um grupo. Concluíram que, mesmo sem verbalizar ou manifestar de qualquer outra maneira aquilo que sabiam, os instruídos tornavam-se líderes e conseguiam rapidamente impor sua preferência à de todos os outros. Como conseguiram isso? Lançando-se à ação sem hesitar. Voltemos a Le Bon:

“Os líderes de que falamos são frequentemente mais homens de ação que pensadores. Eles não são dotados de capacidade de previsão, nem poderiam ser, já que esta qualidade geralmente conduz à dúvida e à inatividade.”

Em 2014, uma equipe de pesquisadores do MIT e de Princeton foi além: pescaram as partes do cérebro mais ativas durante atividades grupais. Com a ajuda de exames de ressonância magnética, mediram a intensidade de funcionamento do cérebro no córtex pré-frontal medial – esta área “acende” quando refletimos sobre nós mesmos, nosso código moral e nossas crenças. Alguns dos participantes nos testes grupais competitivos tinham a atividade no córtex pré-frontal medial muito menor se comparada com a dos mesmos testes executados individualmente – ou seja, quando estavam num grupo, pouco se importavam com as suas convicções pessoais. E mais: em tarefas pós-competição, esses mesmos indivíduos mostraram-se mais propensos a prejudicar membros do grupo adversário. Imagine esses grãos de areia mais leves que os outros no caso de o vento convocar uma tempestade de areia.

Um robô inflama a multidão em Metrópolis.

Um robô inflama a multidão em Metrópolis.

Le Bon, de certa forma, imaginou: “Os homens reunidos numa multidão perdem toda a força de vontade, e se voltam instintivamente para a pessoa que possui a qualidade que lhes falta.” Não foi à toa que o livro do francês virou leitura de cabeceira de Mussolini, de Hitler, e de seu propagandista-mor, Goebbels. Pois, antes de Fúria, quando ainda estava na Alemanha, Fritz Lang anteviu o adestramento da turba furiosa pelo nazismo em Metrópolis (1927).

No filme roteirizado por sua então esposa, Thea von Harbou, o mundo é dividido em uma classe de aristocratas que vive numa sofisticada cidade vertical, e uma classe operária, que faz a cidade funcionar trabalhando nas máquinas debaixo da terra. Lá embaixo, os trabalhadores são confortados por uma líder messiânica, Maria (Brigitte Helm), que prevê a chegada de um salvador para unir as duas classes. Ao saber disso, o poderoso administrador da cidade, Fredersen (Gustav Fröhlich), convoca um cientista para construir uma réplica da líder operária, a fim de desacreditá-la e fomentar a discórdia entre os trabalhadores. O inventor louco, porém, quer se vingar de Fredersen por coisas do passado e programa o robô para insuflar o caos total. Após o sequestro de Maria, sua cópia assume seu lugar para pregar o prazer sem limites aos homens na superfície e a destruição das máquinas aos operários nos subterrâneos. Inflamada pelas palavras da Maria robô, a multidão cega de ódio acaba com os aparelhos, sem saber que eles mantinham o seu próprio mundo em funcionamento. No processo, quase lincham também o filho de Fredersen.

A mulher-máquina de Lang lança mão de gestos e expressão corporal insinuantes para enfeitiçar tanto os aristocratas quanto os operários, dando uma estranha conotação sexual ao movimento das multidões. A ariana Helm, em roupas claras, contrasta com a multidão toda de preto e cinza. Seu poder de sedução remete a um Hitler de saias. Igual ao que aconteceria com a ascensão nazista na Alemanha, a multidão sucumbe a um líder que os enfeitiça de forma simples, direta e eficaz: uma chamada à ação basta para aqueles grãos de areia.

(Hitler, claro, adorava o filme. Lang abjurou a mensagem de Metrópolis depois de fugir para os EUA.)

Segundo a tese do filme, empurrada sem freios, as mãos e o cérebro devem ter sua interação mediada pelo coração. Não deixa de ser irônico, uma vez que o coração simboliza as emoções e paixões humanas – aquelas que a Maria robô usou para manipular os habitantes da metrópole futurista em primeiro lugar. Sérgio Buarque de Hollanda, no livro Raízes do Brasil (1936), deu esse sentido à expressão “homem cordial” para se referir à herança cultural do brasileiro: cordial vem do latim cordis (“coração”), indicando que o brasileiro trata tanto assuntos públicos como privados como se fossem um eterno Fla-Flu. O homem cordial, com seu córtex pré-frontal medial meio “apagado”, é o tipo ideal para a manada furiosa.


 

Assim, começamos a entender o que faz com que as pessoas percam suas inibições para participar de um transe coletivo e violento. Resta ainda decifrar o que atrai nesses ataques repentinos e espontâneos. Linchamentos podem ocorrer pela sensação de insegurança provocada pela ausência do Estado. Em alguns casos, porém, os próprios agentes do Estado, a polícia, incitaram a agressão. Também podem funcionar ao reverso, como uma forma de desafio ao Estado: enxerga-se a justiça popular como um direito inalienável do cidadão, o que ocorreu, de fato, por muito tempo nos Estados Unidos. Com todas as diferenças, uma vontade básica liga todos esses casos, como veremos adiante numa famosa peça teatral.

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Na última parte, (não me esqueci da peça teatral!) a sedução das bruxas, como desarmar um linchamento, a turba virtual 2.0, a sala do suicídio e a rua dos sonhadores.

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