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Que país sou eu?

 

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Da esquerda para a direita: Cláudia Abreu, Tato Gabus Mendes, Antônio Abujamra, Tereza Rachel e Mila Moreira.

 

Em 1989, o Brasil vivia os últimos anos de um plano econômico fracassado, denúncias de corrupção constantes (agora que a imprensa podia divulgá-los livremente), a criação de uma constituição democrática, inflação galopante e Marimbondos de Fogo. Experimentava a sua primeira eleição direta depois de 20 anos de ditadura militar e mais alguns trocados. Dois nomes associados à campanha das Diretas Já (Ulysses Guimarães e Lula) acabaram preteridos em favor de um novato que prometia eliminar a corrupção – o que lhe garantiu a alcunha de “caçador de marajás” – e fazer o país do futuro efetivamente alcançar o futuro. Mas, esperem, este é só o início da novela.

Fernando Color de Mello não era exatamente um vira-latas: vinha de uma linhagem de políticos, filho de Arnon Afonso Farias de Mello e neto do senhor de engenho Manuel Afonso de Melo (com um L só). Arnon Mello passaria à história por ter tentado, como senador, assassinar um inimigo político, Silvestre Péricles, no plenário do Senado Federal em 1963. Errou o tiro e matou José Kairala, que não tinha nada a ver com a história. Voltando a Fernando, ele se elegeu, congelou contas de poupança num plano econômico de improviso, reagiu autoritariamente à imprensa que ajudou a elegê-lo, foi envolvido num esquema da corrupção que prometera combater e acabou renunciando para não sofrer processo de impeachment.

Paralelamente à campanha eleitoral de 1989, a Rede Globo exibia uma outra novela, sobre Avilan, um reino do século XVIII acossado por corrupção e uma rainha louca, cujos conselheiros transformam um mendigo em rei. O novo regente mostra-se mais realista que seus manipuladores e vira um déspota autoritário, até que o povo se rebela e bota no trono um novo rei. 

 

Como você já percebeu, não era exatamente outra novela. Que Rei Sou Eu? (fevereiro a setembro de 1989) foi concebida pelo veterano Cassiano Gabus Mendes – em colaboração com Luís Carlos Fusco e Solange Castro Neves – como uma sátira ao Brasil d’antanho. Os conselheiros reais eram quase todos venais, a rainha falava com uma dicção afetada, a moeda do reino mudava de nome – de caduco para duca – perdendo zeros, e tudo acabava literalmente em samba. Ah, e John Herbert interpretava um conselheiro puxa-saco com o sugestivo nome de Bidet Lambert. 

O sucesso da novela, uma ambiciosa aposta em mudança de linguagem para uma novela do horário das sete, tinha pedigree literário. Bebia da fórmula já testada por dramaturgos gregos, Jonathan Swift (As Viagens de Gulliver), George Orwell (A Revolução dos Bichos) e Lima Barreto (Triste Fim de Policarpo Quaresma), entre outros, de usar o humor e a fantasia para dissecar o ridículo do presente. 

Além disso, Que Rei Sou Eu?, por presciência ou porque a história do Brasil não se emenda, acabou prevendo os eventos da Era Collor. O novo rei salvador não passava de um rufião como tantos outros por trás de seu discurso moralizador, forçando o povo a ir às ruas para provocar sua queda.

Corta para 2016. Após um período de crescimento econômico, o Brasil enfrenta grave crise econômica, políticos camicases e uma presidente paralisada no meio do tiroteio. As políticas sociais que tiraram milhões da miséria começam a ser revertidas, pois amparadas maciçamente em uma base de consumo e geração de empregos precários. Após 13 anos de um governo que prometeu mudanças sociais significativas, uma devastadora investigação de corrupção implica praticamente toda a nata política e empresarial do país. Não sobrou nem a nata dos pastéis do Habib’s. Descobre-se que a empresa por onde passava praticamente toda a economia do país – cujo maior produto é, ainda depois de séculos, commodities – aloja um esquema de propinas e desvio de dinheiro, pelo menos, desde o governo do segundo presidente eleito após 1984, Fernando Henrique Cardoso. E os que vieram depois, dizendo-se de esquerda e de mudanças, também incorreram nas mesmas práticas. Mais rainha Valentine (Tereza Rachel) e rei Petrus III (Tato Gabus Mendes), impossível.

Quais serão as cenas dos próximos capítulos? Talvez Que Rei Sou Eu? possa nos ajudar. 

No último capítulo – sim, eu não me importo com spoilers –, os cidadãos de Avilan celebram a morte do déspota Petrus III e a ascensão de seu salvador, Jean-Pierre (Edson Celulari) ao trono. O novo rei proclama que ninguém “vai mais explorar o trabalho do pobre”, aos gritos de júbilo, que quebram a quarta parede (“Viva o Brasil!”). Ocorre que o novo rei, como todo bom monarca, pode ser um bastardo, mas também é filho do rei anterior. Complicando as coisas, uma velha eminência parda dos velhos tempos volta ao reino com nova identidade para oferecer seus serviços ao novo rei. Seu nome: Richelieu Rasputin Golbery. E a história se repete.

Enquanto isso, na vida real, um ex-presidente sob investigação acaba de ser nomeado Ministro da Casa Civil. Seu papel, segundo o jornalista Renato Rovai, não vai ser “cuidar de defender Dilma do impeachment. Ele vai governar”. Ou seja, na prática, ele tornou-se o novo mandatário. Para aqueles que veem no carismático ex-operário uma figura messiânica, ele passou a ser um fazedor de milagres. Será Lula o novo Jean-Pierre? Ou o salvador estará entre os políticos do PMDB, que saltam fora do barco a pique para apoiar o impeachment da presidente? Ou estará o novo herói entre os políticos da velha guarda, que, aliados a uma autoproclamada nova geração, saíram às ruas junto com os milhões que marcharam por mudança? 

(Vale lembrar que a aparente nova era de combate à corrupção não chegou aos estados que desviam dinheiro de escolas, metrôs, obras de saneamento, e negligenciam políticas de saneamento e segurança pública.)

Na atualidade do texto e da encenação de Que Rei Sou Eu?, gargalhamos com a famosa frase de Karl Marx na cabeça: 

Hegel comenta em algum lugar que todos os grandes fatos e personagens históricos mundiais aparecem, por assim dizer, duas vezes. Ele esqueceu de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.

E a terceira, e a quarta, e a quinta…

Viva o Brasil!

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Sim, a ausência de Itamar Franco foi proposital. Quem será o próximo salvador da pátria?

Que Rei Sou Eu? está disponível numa ótima versão reduzida em box de 13 DVDs nas melhores lojas do ramo.


 

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1 comentário em Que país sou eu?

  1. Na época eu lembro que eu me amarrava nessa novela, acho que eu tive até o album de figurinhas. Mas vi não faz muito tempo um pedaço de um episódio numa reprise no canal Viva e achei meio chata, um pouco datada. Mas pra época foi algo realmente diferente da novela tradicional que até hoje não mudou tanto assim, principalmente no formato. Mas a analogia da novela com a situação do país procede bastante.

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