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Sete Vezes… Arquivo X (Parte 1)

the-x-files

Por Maurício Sellmann e Tiago Ramos

Maurício: Quando Arquivo X (The X-Files, 1993-2003) estreou, as câmeras eram estáticas, as imagens eram chapadas, os orçamentos limitados e o repertório dos dramas para televisão nos Estados Unidos não variava muito do feijão-com-arroz tribunal/delegacia. A Fox, então uma rede de televisão modesta, apostou numa série estrelada por dois desconhecidos nos papéis de agentes do FBI que investigavam o paranormal e alienígenas – tudo ainda com orçamento limitado. Fox Mulder (David Duchovny) era o crente; Dana Scully (Gillian Anderson), a cética. O que no papel parecia um convite ao desastre se tornou o primeiro grande sucesso dramático da nova rede, com nove temporadas e dois filmes, ganhador de Emmys e Globos de Ouro, e uma legião de fãs que incluía de Stephen King a Cher. E se tornou o marco zero para quase tudo o que a TV americana produziu depois.

Com uma nova micro-temporada (de 6 episódios) planejada pela Fox para o ano que vem, após mais de uma década do encerramento da série, velhos fãs e curiosos redescobriram o programa, disponível no Netflix. Se você acabou de sair das fraldas ou nunca deu um tostão para este híbrido de drama, terror e ficção científica, apresentamos sete características que fizeram o êxito de Arquivo X. Para isso, escolhemos episódios que traduziram à perfeição cada um desses elementos — e, de quebra, sugerimos outros com características similares. Alguns deles podem até não constar de listas de melhores de todos os tempos, mas representam o biscoito fino da série.

Tiago: Mais do que uma fonte de informação, amizades e negócios, a Internet nasceu para fazer listas. Mas prometemos fazer o formato batido valer à pena! Para o nosso primeiro “Sete Vezes”, escrito a quatro mãos, abandonaremos um pouco o tom mais sério de nossos textos anteriores e adotaremos o formato de bate-papo.

Se esse for seu primeiro contato com Arquivo X, não se preocupe. Não apenas procuramos selecionar episódios com tramas fechadas, de fácil compreensão para quem nunca assobiou a música-tema do programa, como também daremos todo o contexto necessário para aqueles (raros) casos em que algum conhecimento prévio da série se faz imprescindível. Sem mais delongas, então, limpe seus óculos, aqueça os motores do seu Netflix e vamos à nossa lista de sete – que, você verá, valem por dez – em ordem cronológica de exibição:

1. Ice (Temporada 01, episódio 08)

IceEscrito por Glen Morgan e James Wong
Dirigido por David Nutter

Tiago: Após apenas sete episódios, a série deu o seu primeiro grande exemplo de como seria capaz de construir tensão ao longo de quase uma década de vida. Enviados ao Alasca para investigar a morte de todos os ocupantes de um posto de exploração numa região assolada por tempestades de neve, Mulder, Scully e um grupo de cientistas se veem às voltas com um parasita alienígena, capaz de despertar sentimentos homicidas em seu hospedeiro. Mais ou menos como deve acontecer com você diariamente, preso no engarrafamento obrigatório do trajeto casa-trabalho ou após a décima cotovelada no metrô.

Substâncias gosmentas de outro planeta viriam a aparecer de forma recorrente ao longo do programa. Porém, em Ice, o relacionamento entre os dois protagonistas ainda estava em sua fase inicial de construção, permitindo aos roteiristas explorar a desconfiança entre Mulder e Scully quando os corpos começam a aparecer e tudo o que se sabe é que algum dos investigadores foi infectado pelo parasita. Além disso, o ambiente claustrofóbico, inadvertidamente alimentado pelo formato de tela 4:3, alimenta o clima de mistério – que começa na ótima cena pré-créditos – e paranoia entre os investigadores. Enxergue a semelhança com O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982) como uma homenagem e trema. De frio ou de medo, fica a gosto do freguês.

Maurício: Outros grandes exemplos de construção de tensão na série são Pusher, sobre um homem que pode controlar a vontade alheia, Drive, uma corrida contra o tempo para um homem que está prestes a explodir, e Never Again, em que Scully se vê envolvida com um homem assombrado pela sua tatuagem (voz de Jodie Foster).

2. Anasazi (Temporada 02, episódio 25) / The Blessing Way (Temporada 03, episódio 01) / Paper Clip (Temporada 03, episódio 02)

FullSizeRenderEscritos por Chris Carter e David Duchovny (co-roteirista, parte 01)
Dirigidos por R.W.Goodwin (partes 01 e 02) e Rob Bowman (parte 03)

Maurício: A ideia de se estruturar uma série inteira em torno de uma mitologia, isto é, um único grande arco narrativo, tornou-se popular com Arquivo X, um híbrido bem-sucedido de episódios isolados (ou stand-alone) e outros que contavam uma história novelesca, contínua. De Buffy a Game of Thrones, este formato passou a ser norma enquanto as séries com episódios fechados (como Law & Order) tornaram-se exceção. Arquivo X conseguiu dominar a técnica logo em sua segunda temporada. Nesses três episódios, que juntos funcionam como um longa-metragem, estão todos os elementos mais importantes da série e mais um pouco: hackers, traidores, conspirações globais, alienígenas, cura xamânica, cientistas nazistas, drama familiar e, de quebra, o blefe mais descarado que você já viu na vida.

Tiago: Escritos pelo criador da série, Anasazi e companhia trazem, ainda, todos os principais coadjuvantes do programa: Skinner, chefe de Muder e Scully e sua sempre questionada (pelos personagens tanto quanto pelo espectador) lealdade à dupla; Frohike, Byers e Langly, trio de geeks que divide com Fox Mulder a crença no sobrenatural e em uma grande conspiração governamental; além, claro, do “Cigarette-Smoking Man” (conhecido no Brasil como “Canceroso”), principal vilão de Arquivo X. Todos em busca de uma fita DAT que pode expor os conspiradores e sua relação com os alienígenas, bem como elucidar a suposta abdução da irmã de Mulder, Samantha, quando criança, e da própria Scully no início da temporada. E se você acha que uma fita de áudio digital mostra a idade da série, espere só até ver o tamanho dos celulares…

Maurício: E as ombreiras! Os episódios da mitologia também permitem vislumbrar o escopo de produção da série. Com criatividade para superar o orçamento limitado e locações no Canadá, os produtores conseguiram trazer para a televisão tramas de alcance mundial. Em Anasazi, uma pedreira nos arredores de Vancouver foi toda pintada em tons vermelhos para simular o deserto do Novo México. Em episódios futuros, teríamos cenários construídos para simular um submarino preso no gelo do Ártico (End Game), prisões siberianas (Terma e Tunguska) ou ainda a gigantesca caverna de gelo de quase um quilômetro quadrado erguida para Gethsemane. Essa ousadia para expandir o campo de ação dos personagens transformou-se em moeda corrente, especialmente nas séries de J.J. Abrams (AliasLost).

Tiago: Nem tudo são flores, entretanto. Ao longo do tempo, os detalhes da mitologia foram se tornando cada vez mais arcanos e confusos, com episódios entrando em clara contradição. Aqui mesmo há um pequeno exemplo disso (ainda que irrelevante face ao escopo da trama que se desenrola ao longo dos anos): se a tal fita DAT não permite cópias impressas do seu conteúdo, como é dito no terceiro capítulo, que papelada é aquela que Scully carrega no primeiro? Receita de rocambole da Ana Maria Braga? Deixando isso de lado, porém…

Maurício: Estes três episódios são bem acessíveis, com excelente equilíbrio de ação e informações no roteiro. Sem falar nos ganchos. O fim de Anasazi (e da segunda temporada) envolve um personagem preso num bunker subterrâneo cheio de esqueletos alienígenas, um exército particular, a ordem “Queimem tudo” e o aviso de “Continua”. Impossível não querer voltar para ver o resto.

3. Clyde Bruckman’s Final Repose (Temporada 03, episódio 04)

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Escrito por Darin Morgan
Dirigido por David Nutter

Maurício: Antes deste episódio ir ao ar, Clyde Bruckman era mais conhecido como o co-diretor de A General (The General, 1926), uma comédia clássica do cinema mudo estrelada por Buster Keaton, famoso por ter sempre a mesma cara triste por mais engraçada que a cena fosse. O ator Peter Boyle parece inspirado por Keaton ao interpretar o Clyde Bruckman do episódio, um vendedor de apólices de seguros com o dom nada invejável de prever a morte das pessoas. Seu caminho cruza com os de Mulder e Scully durante uma investigação sobre assassinatos de videntes profissionais (uma trama que será retrabalhada em outro episódio desta lista). Darin Morgan ganhou um Emmy de roteiro original por conseguir combinar humor, suspense e uma dose generosa de melancolia. Ele já havia quebrado o formato único de episódios sombrios da série com Humbug, sobre um show de aberrações de circo. Em Final Repose, porém, ele acertou as proporções e abriu caminho para que o humor e a fina ironia se tornassem parte importante da fórmula da série. Os diálogos são afiados, enriquecendo a caracterização dos personagens principais.

Outra parte não desprezível do êxito do episódio é a música atmosférica de Mark Snow, que sinaliza um desconforto agourento mesmo nos momentos mais leves. Quando Snow erra na série, exagera na quantidade de momentos musicados nos episódios; mas, quando acerta, como neste caso, levanta a narrativa. O Clyde Bruckman de Peter Boyle, que lhe garantiu um Emmy de Ator Convidado, é um homem que vê a própria morte como um alívio, mas usa o humor para confortá-lo na espera por um futuro que já está escrito. Suas frases divertidas também possuem uma carga de tristeza que o torna um personagem comovente. A atmosfera fatalista de Final Repose permeia muitos outros episódios da série, como Oubliette, Elegy e Tithonus. Este último, aliás, é o episódio que resolve o enigma do diálogo mais famoso de Final Repose. Scully pergunta a Bruckman como ela vai morrer, no que ouve a resposta…

Tiago: E com aquele que muitos consideram o melhor episódio da série, chegamos à metade de nossa lista. Você talvez esteja estranhando uma lista de sete itens chegar no meio de seu caminho com três (ou cinco), mas garantimos que não se trata de caso para o Arquivo X — e sim para evitar trombose. Ademais, sentimos que você também merece um descanso para esticar as pernas. Ou quem sabe para conferir/rever alguns dos episódios acima? Se você é fã do programa, sinta-se à vontade para se juntar à conversa e compartilhar conosco sua lista de sete episódios favoritos, seja nos comentários, no Medium, por e-mail, Twitter ou FacebookCaso não seja, não se acanhe e divida com a gente suas impressões sobre este ou qualquer outro de nossos artigos. Quando estiver pronto, clique aqui para a segunda parte. Até lá!

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